O São Paulo Fashion Week começou ontem, dia 17 de junho, e no primeiro dia de desfiles o que se viu foi foram desfiles contidos e que representaram bem o tema adotado por essa edição do evento, que tem como base a imigração japonesa para o Brasil e o combate ao desperdício.
A maior semana de moda da América Latina deixou a Bienal paulista verdadeiramente nipônica e politicamente correta. Estampas japonesas impressas em placas de papelão, latas de lixo que estimulam a reciclagem e duas exposições de roupas feitas no Japão (ou por japoneses) concretizaram a temática do evento.
Cinco das seis marcas que desfilaram neste primeiro dia fizeram apresentações mais contidas, em que as roupas eram as atrações principais, de fato. Primeira a desfilar, a Osklen (foto à esquerda) entrou no clima ‘sustentável’ e Oskar Metsavaht levou para a passarela uma série de tecidos sócio-ambientais, os e-fabrics: lona, plástico, couro de avestruz, jacaré e até peixe em chapéus, bolsas e nos sapatos.
Ao som de água correndo, a coleção da Osklen (foto abaixo) começa a ser mostrada em tons de cinza e prata. Ao longo do desfile outros tons neutros, como branco e marfim, vão surgindo. À exceção do turquesa e do vermelho, as outras cores não são intensas e às vezes surgem num interessante degradê que leva o verde da água ao bem fechado e o rosa, do tom seco ao salmão.

Oskar propõe roupas amplas para eles e para elas. As calças de gancho baixo são sugeridas para homens e mulheres e a grande maioria das peças tem bolsos. A pegada oriental aparece nas blusas que trazem faixas de quimono e outras com abotoamento diagonal.
Como um jogo de encaixe e desencaixe, Oskar leva para a passarela camisas descontruídas e peças com bolsos enormes, que criam volumes. Entre os tecidos figuram algodão, linho, palha de seda e chamois, entre outros. Mas se destaca o tricô resinado com toque metalizado que vira vestido e colete – para ele ou ela.
Os chapéus, em pele de tilápia, têm forma de coador de café. As bolsas são em tamanho máxi. Nos pés, elas usam tênis com sola de corda de juta e cadarço que amarra no tornozelo. A sandália têm salto anabela em corda e cobre quase todo o pé. Já eles calçam tênis e espadriles.
A segunda a desfilar foi Patricia Viera (foto à direita), com suas roupas em alfaiataria de couro e várias peças em tecido.
Viera levou para a passarela roupas em que chamava atenção o tratamento especial dado ao couro, que ganhava efeito molhado com a aplicação de películas de silicone.
As mulheres de Patricia (foto abaixo) usam blazer, bermuda em estilo alfaiataria, calça capri, blusas e shorts com finalização balonê, coletes e vestidos de manga sino. A estilista trabalhou ainda um interessante mosaico em couro – disforme em tons de marrom e preto; floral, quando colorido – aplicado sobre tecidos como tule e organza de seda.

As cinturas das mulheres vêm bem marcadas por faixas largas e coloridas em tressê, que também aparece em sandálias que são presas aos tornozelos. Patricia varia no pé apostando em outra tendência que já se viu muito nesta temporada de moda: o tipo abotinado.
A 2nd Floor (foto à esquerda) propôs uma viagem pelo globo com uma coleção que mistura safári, ares náuticos e outros étnicos. Sob o comando de Rita Wainer, o grupo de criadores da marca desenvolveu uma coleção bem colorida em que o cáqui se mistura a tecidos com cara de bandeiras náuticas e outros cheios de cores ácidas.

O ar de safári fica explícito nas roupas cheias de bolsos com mil e uma utilidades. Macacões, coletes e vestidinhos estiveram no desfile da 2nd Floor (foto acima). As tais “bandeiras” ganham forma de vestidos cheios de drapeados e pregas, além de estamparem parkas e túnicas em malha listrada. As bolsas acompanham essa viagem e vêm grandes, em sua maioria, e com diferentes estampas. A supercolorida, numa linha típica dos índios latino-americanos, é a deixa para a entrada dos tons mais ácidos na passarela.
O verde neon surgiu no desfile da 2nd Floor em bermudas e casacos, para eles e elas. Outras cores fluorescentes aparecem em estampas tipo mosaico e detalhes em escamas, que formam palas e alças em vestidos e túnicas. O jeans ganha cara vintage com as sucessivas lavagens e as sandálias, com salto tipo meia pata são (mais uma vez) presas nos tornozelos.
A Tufi Duek foi buscar a referência da Forum (foto à direita) nos Lençóis Maranhense para uma coleção em que o parque nacional aparece misturado a motoqueiras super sexys e fãs dos metais dourados. A marca colocou na passarela mulheres em calças curtas e jaquetas cheias de zíperes. Os formatos são variados: as calças têm diferentes formatos, podendo ser secas ou do tipo sarouel; já as jaquetas são mini, midi e máxi, em estilo perfecto ou num trench-coat ousado, que deixa as pernas de fora e tem um ar militar nos ombros.
As curvas surgem na seda texturizada e em decotes sinuosos. O movimento “ao vento”, Tufi garante com vestidos de seda, alguns longos, com muitos drapeados. O estilista também cria detalhes em tiras de tecido que remetem às ondas da areia. Branco e tons de bege imperam na coleção e os tons de azul começam a surgir nas estampas fotográficas dos vestidos – vista aérea dos Lençóis.

A Forum (foto acima) aposta fortemente no dourado, que aparece nos zíperes, nas tachas dos cintos, nos colares de bolas grandes e nas correntes das bolsas – que as modelos carregam nas mãos, como grandes carteiras. As sandálias têm forma de bota e vêm num couro todo vazado, formando uma grande rede sobre o pé.
Penúltima a se apresentar, Fabia Bercsek (foto à direita) transformou suas modelos em bonecas contemporâneas, que vestem couro, vinil, usam cílios postiços de plumas e não abrem mão do estilo esportivo da Adidas, calçando o tênis da marca para qual a estilista cria.
O look das bonecas de Fábia lembrava o desfile de prêt-à-porter da Dior, em fevereiro deste ano em Paris, quando a marca transformou as mulheres em Barbies pós-modernas.
Na prática, o resultado apresentado por Bercsek teve vestidos com saias curtas e godês e babados dando volume às mangas. Os comprimentos das saias e vestidos são curtos e as calças podem vir sequinhas ou ajustadas apenas nas canelas, com um ar meio bombacha.
A sensualidade das bonecas modernas de Fabia fica garantida em corselets do tipo tomara-que-caia. O japonismo marca presença em quimonos dupla face. Os tecidos são malhas tecnológicas, jacquard, linho, chiffon, couro perfurado e vinil que ganha colorido com bordados de desenhos divertidos, como batons.

As cores predominantes na coleção de Fabia Bercsek (foto acima) são preto, rosa, marinho e bege, que aparecem em botinhas e scarpins bicolores.
O primeiro dia de SPFW foi encerrado com o desfile da Do Estilista (foto à esquerda), marca de Marcelo Sommer, em meio a uma exposição sobre o Japão, no Museu de Arte Moderna. A apresentação do desfile de Sommer foi confusa já que a organização do evento mudou a forma de trabalhar com a imprensa e nem todos os credenciados conseguiram entrar nos desfiles. Parte da imprensa acabou barrada e a apresentação sequer foi exibida nos telões da Bienal. No entanto, que assistiu ao desfile conta que a coleção (foto abaixo), toda inspirada em fantasias, foi bastante conceitual.

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