MEMÓRIA MAIS AÇÃO: Com Gonzagão e Elvis se faz um maluco beleza!
setembro 26th, 2009, por admin

Quem disse que a Bahia só fabrica bandas de axé music? Quem disse que o rock n’ roll não pode correr nas veias de um soteropolitano?
Raul Santos Seixas veio ao mundo no dia 28 de junho de 1945, em Salvador (BA). Filho de Raul Varella Seixas e Maria Eugênia Seixas, o garoto passou sua infância lendo livros na biblioteca do pai e ouvindo músicas tipicamente nordestinas, acompanhando o sucesso de Luiz Gonzaga (o Rei do Baião) nas rádios e conhecendo repentistas nas viagens que fazia com Seu Raul, que trabalhava como inspetor de ferrovia. Mas além da influência das raÃzes musicais sertanejas, o jovem Raul se apaixonou pelo talento e a atitude do cantor norte-americano Elvis Presley (o Rei do Rock). Essa mistura de rock n’ roll e ritmos nordestinos caracterizaria toda a obra de Raul, que traria vida nova à música popular brasileira.
Aos 12 anos, o jovem Raulzito fundou o grupo Os Panteras, primeiro conjunto de rock da capital baiana a utilizar instrumentos elétricos. Paralelamente à sua diversão musical com amigos, Raul começou a cursar Direito, mas abandonou os estudos para se dedicar totalmente à carreira musical. Depois de se apresentarem pelo interior baiano, Os Panteras viajaram ao Rio de Janeiro a convite do cantor Jerry Adriani, que conhecera o grupo em Salvador e se apaixonara pelo som dos rapazes. Na Cidade Maravilhosa, os baianos gravaram o primeiro disco, “Raulzito e Os Panteras”, de 1967, pela gravadora Odeon. O álbum se tornou um fracasso de vendas, mas Raul Seixas não desistiu – em 1970, o músico volta ao Rio para trabalhar como produtor em outra gravadora, a CBS. Nesta produtiva fase, o roqueiro baiano se envolveu na feitura de discos de Jerry Adriani, Leno e Lilian, Diana, dentre outras estrelas da época. Sua contribuição à Jovem Guarda não parou por aà – Raul compôs mais de 80 músicas, como os sucessos “Ainda Queima a Esperança”, “Sha-la-la-la”, “Doce, Doce, Doce Amor” e “Tudo Que é Bom Dura Pouco”.

Em um ato de rebeldia, em que aproveitou a ausência do presidente da CBS, Raulzito gravou seu segundo LP, em parceria com Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada. O subversivo “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez” foi posteriormente retirado do mercado por não seguir o padrão de produtos da gravadora. Após perder o emprego, o roqueiro baiano participou do Festival Internacional da Canção de 1972, realizado pela Rede Globo, com duas músicas: o baião-rockabilly “Let Me Sing, Let Me Sing” e “Eu Sou Eu Nicuri É o Diabo”. Depois da projeção nacional que o evevnto lhe proporciounou além do lançamento do hit “Ouro de Tolo”, em 1973 Raul é contratado pela Philips, através da qual emplaca seus primeiros grandes sucessos como “Mosca na Sopa”, “Al Capone” e o hino “Metamorfose Ambulante”, todos reunidos no mÃtico disco “Krig-Ha, Bandolo”, que marcou o inÃcio de sua parceria criativa com o escritor Paulo Coelho.

Já desfrutando do reconhecimento como singular cantor e compositor, de letras irreverentes e debochadas, Raul viveu um drama ao lado do amigo Paulo Coelho. Por promover a filosofia da utópica Sociedade Alternativa em seus shows, ele é detido pelo governo militar e torturado, para depois ser exilado nos Estados Unidos. O músico só voltaria ao PaÃs após o megasucesso do LP “Gita”, de 1974, que vendeu 600.000 exemplares e lhe valeu um inédito disco de ouro em sua carreira. No mesmo ano, Raulzito se separa de sua primeira esposa, Edith Wisner, mãe de sua filha Simone.
Em 1975, com a carreira consolidada, Raul Seixas grava o disco “Novo Aeon”, que apresentou ao Brasil outra de suas canções mais memoráveis: “Tente Outra Vez”, um verdadeiro hino de auto-superação. Na época, o baiano se casa com Glória Vaquer. No auge da produtividade artÃstica e tendo conquistado uma sólida base de fãs e admiradores, Raul lança, em 1976, “Há Dez Mil Anos Atrás”, cuja faixa “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás” figura entre as mais marcantes composições da música brasileira.
Em 1977, Raul migra para a gravadora WEA, com a qual lança três álbuns – “O Dia Em Que a Terra Parou”, “Mata Virgem” e “Por Quem Os Sinos Dobram” -, que apesar de não agradar à crÃtica, foram um grande sucesso comercial. Nesta safra, emplacou novos hits em seu repertório: a hippie “Maluco Beleza”, a anárquica “Aluga-se” e ainda “Rock das Aranhas”, todas compostas em parceria com Cláudio Roberto. Mas é a partir de 1978 que Raulzito começa a sofrer de problemas relacionados ao alcoolismo, que lhe compromete 1/3 do pâncreas. Após se separar de Glória, o músico vai aos EUA e leva a filha Scarlet; na mesma época, conhece Tania Menna Barreto, com quem vive um curto relacionamento até 1979. Este ano foi marcado pela depressão de Raul, seguido de sua internação em decorrência de seu excessivo consumo de álcool; em meio a esse conturbado perÃodo em sua vida, o baiano conhece Angela Afonso Costa, que seria conhecida como Kika Seixas, sua quarta companheira.

Apesar da constante mudança de gravadoras e da luta contra o alcoolismo, Raul se manteve como artista em evidência ao longo da década de 80: lança os LPs “Abre-te Sésamo”, “Raul Seixas”, “Metrô Linha 743″, “Uah-bap-lu-bap-lah-bdim-bum!” e “A Pedra do Gênesis”. Entre a produção de um disco e outro, o Maluco Beleza festejou o nascimento de Vivian, sua terceira filha, fruto do casamento com Kika, e conheceu Lena Coutinho, que passou a ser sua nova companheira.
No final dos anos 80, Raulzito figura entre especiais do “Fantástico” (embalado pelo sucesso do musical “Plunct! Plact! Zum”) e ainda viaja pelo PaÃs numa turnê de 50 shows ao lado de Marcelo Nova, vocalista do grupo baiano Camisa de Vênus. Esta seria sua última parceria criativa, com quem lançou seu último álbum, “A Panela do Diabo”. Em 21 de agosto de 1989, aos 44 anos, o baiano morre por parada cardÃaca, decorrente de uma pancreatite aguda fatal (consequente do agravamento de seu alcoolismo). “A Panela do Diabo”, que chegou à s lojas no dia seguinte à sua morte, vendeu 150.000 cópias e garantiu mais um disco de ouro para a brilhante carreira do músico.

Apesar de ter falecido precocemente, Raulzito mantém um legado inestimável na música brasileira. Suas canções inspiram regravações até hoje. Sua legião de fãs continua lotando shows de covers e tributos à sua vasta e diversificada obra. “Toca Raul!”, é o que se ouve em qualquer show de rock em qualquer barzinho brasileiro. O Maluco Beleza é imortal.
Este foi o especial “Raul Seixas – O Maluco Beleza”, do projeto “Memória Mais Ação”.
