

O ano de 2010 se aproxima do fim como um dos mais marcantes da história recente da política brasileira. Não somente pelo fim da Era Lula, que compreende os oito anos e os dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência da República, mas também pela eleição inédita de uma mulher para sucedê-lo no cargo. Dilma Vana Rousseff nasceu em 14 de dezembro de 1947 em Belo Horizonte (MG) e tem um passado de militância contra a ditadura, com atuação no Comando de Libertação Nacional (Colina) durante o final dos anos 60. Em 2003, assumiu o Ministério de Minas e Energia, cargo que ocupou até 2005. Posteriormente passou a trabalhar como ministra-chefe da Casa Civil, depois que José Dirceu deixou o cargo em meio às denúncias do mensalão, um dos maiores escândalos do governo Lula – que, apesar dessa e outras controvérsias, bateu recorde de popularidade em 2010, com aprovação de 87% pela população brasileira segundo levantamento do instituto Sensus.
A vitória de Dilma nas eleições deste ano, porém, não foi tão folgada como mostravam as primeiras pesquisas de intenção de voto. Apesar da disputa no 1º turno ter sido polarizada entre a petista e José Serra, do PSDB, a candidata verde Marina Silva, do PV, demonstrou ter apelo junto a grande parte da população, o que lhe garantiu 19,33% dos votos. Com o empate técnico entre Dilma e Serra (46,91% e 32,61%, respectivamente), a decisão foi para o 2º turno, vencido pela petista com 56,05% dos votos.
A cerimônia de posse da primeira mulher eleita presidente do Brasil está marcada para o dia 1º de janeiro de 2011 em Brasília, com presença de chefes de Estado e delegações de todo o mundo. O clima de otimismo para com o vindouro governo prevalece entre os brasileiros – segundo a pesquisa do instituto Sensus, 69,2% da população acredita que Dilma terá uma gestão “ótima” ou “boa”.
- UM PALHAÇO NO CONGRESSO -

Outra figura marcante na cobertura das Eleições 2010 (clique aqui para conferir nosso especial) foi o palhaço Tiririca, que se candidatou pelo Partido da República de São Paulo e se tornou o deputado federal mais votado do país no pleito, com 1,3 milhão de votos. A polêmica em torno do irreverente personagem não parou por aí; o promotor Maurício Antonio Ribeiro Lopes, do Ministério Público Eleitoral, acusou o humorista (cujo nome verdadeiro é Francisco Everardo Oliveira Silva) de ser analfabeto, e portanto ter mentido no registro de sua candidatura, cometendo crime de falsidade ideológica. Se fosse provado seu analfabetismo, Tiririca não poderia assumir o cargo de deputado.
A defesa do palhaço chegou a argumentar que ele sofre de uma deficiência motora e por isso teria sido ajudado por sua esposa para escrever a declaração de alfabetização necessária ao registro da candidatura. O caso foi encerrado quando o juiz Aloísio Sérgio Rezende Silveira, da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, absolveu Tiririca e permitiu sua diplomação afirmando que o humorista havia demonstrado, no exame de leitura e ditado a que se submeteu em novembro, “um mínimo de intelecção do conteúdo do texto, apesar da dificuldade na escrita”.
Ainda em relação à política, a validade da Lei da Ficha Limpa nas eleições deste ano também foi amplamente discutida na imprensa e pela população. Clique aqui para saber mais.
- INVASÃO AO COMPLEXO DO ALEMÃO -

Outro episódio marcante no cenário social brasileiro em 2010 foi a invasão de policiais civis, militates e federais ao Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, ocorrida no dia 28 de novembro. Tido como um dos maiores redutos de narcotraficantes da capital carioca, o local composto por 13 favelas foi ocupado pelo Estado, com o apoio do Exército e da Marinha, em uma missão de “busca, procura, prisão e apreensão” de drogas, armas e criminosos, segundo o comandante-geral da Polícia Militar, Sérgio Duarte.
A tensão entre polícia e traficantes do Rio aumentou na noite de 20 de novembro, quando um ataque na rodovia Rio-Magé (BR-116) deu início a uma onda de violência na capital carioca, em resposta à implantação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) nas favelas da cidade. Veículos queimados nas ruas e cabines de polícia metralhadas espalharam o clima de terror entre a população, mas a posterior ocupação do Complexo do Alemão pelas autoridades assegurou dias mais tranquilos aos moradores. Apesar de instaurada a segurança policial no conjunto de favelas, já houve denúncias de abuso de autoridade e até roubo por parte de alguns membros da polícia no local.
- A POLÊMICA DO ENEM -

O ano de 2010 também foi marcado pela polêmica envolvendo a realização do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Aplicado nos dias 6 e 7 de novembro, o teste gerou revolta por parte de alguns estudantes devido a falhas na impressão da folha de respostas e do caderno de questões amarelo. Apesar de o Ministério da Educação (MEC) ter informado que os fiscais alertaram os candidatos, os erros causaram confusão e desorientação.
Em meio à insatisfação de grande parte dos estudantes que se submeteram à prova, a juíza Karla de Almeida Miranda Maia, da 7ª Vara Federal do Ceará, determinou a suspensão do Enem em todo o Brasil, propondo a realização de uma nova prova para os candidatos que tivessem se sentido prejudicados. A pedido do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pelo teste, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região derrubou a liminar da juíza. O presidente do TRF, desembargador Luiz Alberto Gurgel de Faria, argumentou que a realização de uma nova prova consistiria em “grave lesão à ordem administrativa”, já que prejudicaria os cronogramas dos vestibulares das universidades e institutos federais que utilizam as notas do Enem para a seleção de seus alunos. “A decisão da Justiça Federal do Ceará, louvada em eventual irregularidade nas provas de menos de 0,05% dos candidatos, equivalente a 2 mil estudantes, finda por prejudicar a todos os demais, afrontando o princípio da proporcionalidade”, defendeu, enfatizando que um novo exame resultaria em prejuízo de R$ 180 milhões aos cofres públicos.
- TRAGÉDIAS NATURAIS E RESGATE DOS MINEIROS -
Além do terremoto de 7 graus de magnitude na escala Richter que destruiu o Haiti em janeiro, matando entre suas mais de 230 mil vítimas fatais a filantropa brasileira Zilda Arns, o ano de 2010 viu tragédia semelhante se repetir em março, quando um tremor de magnitude 8.8 atingiu o Chile e provocou, além de mais de 800 mortes, o desmoronamento de alguns edifícios na capital Santiago e incêndios em Concepción.

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O Chile também se tornou o centro das atenções no mundo quando 33 mineiros que estavam soterrados na mina San José desde o dia 5 de agosto, a 622 metros da superfície, foram resgatados um a um em 13 de outubro, através do envio da cápsula Fênix II por um poço perfurado no local. Durante os 70 dias em que estiveram presos no fundo da jazida, os operários viveram em condições precárias de higiene e alimentação, mas foram recebidos como heróis por seus familiares e o governo do Chile, num ato que reacendeu a chama nacionalista do país. “Quando o Chile se une, somos capazes de grandes coisas. Quero convidar todos os chilenos a que tenham esse compromisso não apenas nas adversidades”, disse o presidente Sebástian Piñera.
- O VATICANO E A CAMISINHA -

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Outra notícia pegou a comunidade internacional desprevenida em novembro deste ano. Em alguns trechos do livro “Light of the World: The Pope, the Church and the Signs of the Times” (“Luz do Mundo: o Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos”), publicados pelo jornal “L’Osservatore Romano”, do Vaticano, o Papa Bento XVI declarou que o uso de camisinha, abominado pela Igreja Católica, é aceitável em “certas situações”. “Em alguns casos, quando a intenção é reduzir o risco de infecção, ela pode todavia ser um primeiro passo no caminho para uma outra sexualidade, mais humana”, afirmou o pontífice em entrevista a um jornalista alemão.
O Papa também afirmou que o uso de preservativos por prostitutas é o “primeiro passo no sentido da moralização”, ainda que, para ele, as camisinhas “não sejam realmente o caminho para lidar com o mal da infecção pelo HIV”.
- JULIAN ASSANGE O WIKILEAKS -

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Uma das personalidades mais marcantes de 2010 só veio chamar atenção dos holofotes nos últimos meses do ano. O jornalista australiano Julian Assange, de 39 anos, entrou na mira do governo norte-americano depois que seu site, o WikiLeaks (especializado em publicar informações e documentos confidenciais dos bastidores da geopolítica internacional), provocou o maior escândalo diplomático desta década.
Com a divulgação de 250 mil telegramas secretos do Departamento de Estado norte-americano no final de novembro, o WikiLeaks gerou constrangimento e desconforto para os EUA em relação ao resto do mundo. Num dos relatórios, diplomatas norte-americanos dizem que o Brasil ocultou a prisão de terroristas, informação negada pelo governo brasileiro. Em outro documento, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, ordena a espionagem de autoridades da ONU (Organização das Nações Unidas).
Apesar de levantar a bandeira da democratização da informação e se tornar figura admirada por boa parte do mundo, Assange logo se viu acuado. Em 30 de novembro, foi acusado de estupro e abuso sexual na Suécia e colocado na lista de procurados da Interpol – sendo que, na relação sexual com uma das duas denunciantes, Ana Ardin, seu preservativo se rompeu, o que para a Justiça sueca equivale a estupro. No dia 7 de dezembro, ele se apresentou à polícia de Londres, negou as acusações e foi liberado após pagamento de fiança no valor de 200 mil libras. Outra audiência do caso está marcada para o dia 11 de janeiro de 2011. Enquanto isso, o WikiLeaks continua no ar…
Este foi o especial Retrospectiva 2010, que apresentou os fatos e personalidades mais marcantes do ano no cinema, na música, na TV, no esporte e na política.
