MEMÓRIA MAIS AÇÃO: Os garotos de Brasília.
março 10th, 2010, por admin
Ninguém poderia prever que aqueles quatro garotos formariam a maior banda de rock do Brasil… A Legião Urbana nasceu em 1982 em decorrência da separação do grupo Aborto Elétrico, um dos nomes mais influentes do cenário punk que eclodia entre os jovens de Brasília no final dos anos 1970. A primeira formação do Legião contava com Renato Russo nos vocais e baixo, Marcelo Bonfá na bateria, Eduardo Paraná na guitarra e Paulo Paulista nos teclados. Com a saída destes dois últimos, Dado Villa-Lobos assumiu a guitarra em março de 1983.

Herdando várias músicas do repertório do Aborto Elétrico (que também originaria outra banda da cena brasiliense, o Capital Inicial), as primeiras apresentações do Legião Urbana traziam composições de temas fortes e mensagens de rebeldia e contestação sócio-política, como “Que País é Este?”, “Química” e “Geração Coca-Cola”. Ao assistir a um show do grupo, qualquer um perceberia o impacto de sua sonoridade e o frescor de sua atitude, diretamente inspirada em bandas britânicas como Joy Division e The Smiths. A fama bateria à porta dos garotos rebeldes no dia 23 de julho de 1983, quando eles se apresentam no Circo Voador, do Rio de Janeiro, e são convidados pela gravadora EMI para gravar uma fita demo.

Lançado em 1985, o primeiro disco do grupo, intitulado “Legião Urbana”, marcou a entrada do baixista Renato Rocha e chamou a atenção da crítica especializada e dos jovens brasileiros, que se identificaram com o universo ao qual a banda se referia em canções como “Será”, “Por Enquanto”, “Geração Coca-Cola” e “Ainda é Cedo”, hits instantâneos e clássicos eternizados na voz de Renato Russo, o líder performático cuja atitude se comparava à do carismático Cazuza. Em 1986, depois do impactante sucesso da estreia, o Legião entrega ao público o disco “Dois”, o álbum mais vendido da história da banda, que trouxe mais sucessos para solidificar a base de fãs: “Índios”, “Quase Sem Querer”, “Eduardo e Mônica” e “Tempo Perdido”, considerado um hino da juventude roqueira do Brasil.

O estouro de “Dois”, porém, quase faz a banda terminar: numa apresentação tumultuada em dezembro de 1986, em Brasília, vinte pessoas ficam feridas e uma jovem morre. Os membros cogitaram o fim do Legião, mas preferiram dar continuidade à carreira promissora, lançando o terceiro disco, “Que País é Este?”, uma espécie de coletânea com músicas do Aborto Elétrico, recontando a trajetória do grupo com pérolas como “Angra dos Reis”, “Faroeste Caboclo” e “Que País é Este?”. Desfrutando de seu auge no cenário nacional e colecionando elogios da imprensa, a Legião Urbana gravou, em 1989, o álbum “As Quatro Estações”, que firmou definitivamente a importância de Renato Russo e Cia. na história do rock brasileiro. Das onze faixas do disco, pelo menos nove se destacaram como hits radiofônicos, dentre elas “Pais e Filhos” e “Monte Castelo”. Devido a desentendimentos com Bonfá, Villa-Lobos e Russo, Renato Rocha deixa o grupo.

Em 1991, quando “V” foi lançado, porém, o vocalista Renato Russo atravessava um momento delicado em sua vida; ele sofria de alcoolismo e descobria que era soropositivo. Entre os destaques do melancólico quinto disco, estão “Teatro dos Vampiros” e “Vento no Litoral”. No ano seguinte, o Legião lança o bem-sucedido “Acústico MTV”, mas a turnê é interrompida devido a complicações de saúde de Renato Russo, que no início de 1993 inicia um tratamento intensivo em decorrência da AIDS. Neste mesmo ano, a banda grava “O Descobrimento do Brasil”, que alterna canções de alegria, saudosismo e tristeza, como “Perfeição” e “Vinte e Nove”.

O último disco da banda viria em 1996, com o título de “A Tempestade ou O Livro dos Dias”. O amadurecimento musical dos integrantes se mistura à melancolia da debilidade física de Renato Russo e resulta em canções sensíveis e densamente poéticas, como “A Via Láctea”, “O Livro dos Dias” e “Longe do Meu Lado”. O vocalista do Legião viria a falecer em 11 de outubro daquele ano, dias depois do lançamento do álbum. Villa-Lobos e Bonfá decidiram, então, acabar oficialmente com o grupo.
O Legião Urbana ilustra perfeitamente um daqueles casos frequentes no mundo da cultura pop em que uma banda de rock dispara para o sucesso com genialidade e inteligência ímpares mas encontram um final tragicamente prematuro para a carreira. O polêmico e talentoso Renato Russo se foi como tantos outros astros levados pela AIDS, mas ainda é adorado com a mesma devoção e admiração de uma verdadeira legião de fãs que se renova a cada década. Poucos grupos musicais brasileiros souberam aliar espírito jovem à crítica sócio-política em letras cheias de poeticidade. O Legião foi o melhor de sua linhagem, e por isso é considerado a maior banda de rock do Brasil.
Este foi o especial “Legião: Rebeldes com Causa”, homenagem do projeto Memória Mais Ação à banda Legião Urbana.



Raul Santos Seixas veio ao mundo no dia 28 de junho de 1945, em Salvador (BA). Filho de Raul Varella Seixas e Maria Eugênia Seixas, o garoto passou sua infância lendo livros na biblioteca do pai e ouvindo músicas tipicamente nordestinas, acompanhando o sucesso de Luiz Gonzaga (o Rei do Baião) nas rádios e conhecendo repentistas nas viagens que fazia com Seu Raul, que trabalhava como inspetor de ferrovia. Mas além da influência das raízes musicais sertanejas, o jovem Raul se apaixonou pelo talento e a atitude do cantor norte-americano Elvis Presley (o Rei do Rock). Essa mistura de rock n’ roll e ritmos nordestinos caracterizaria toda a obra de Raul, que traria vida nova à música popular brasileira.
Aos 12 anos, o jovem Raulzito fundou o grupo Os Panteras, primeiro conjunto de rock da capital baiana a utilizar instrumentos elétricos. Paralelamente à sua diversão musical com amigos, Raul começou a cursar Direito, mas abandonou os estudos para se dedicar totalmente à carreira musical. Depois de se apresentarem pelo interior baiano, Os Panteras viajaram ao Rio de Janeiro a convite do cantor Jerry Adriani, que conhecera o grupo em Salvador e se apaixonara pelo som dos rapazes. Na Cidade Maravilhosa, os baianos gravaram o primeiro disco, “Raulzito e Os Panteras”, de 1967, pela gravadora Odeon. O álbum se tornou um fracasso de vendas, mas Raul Seixas não desistiu – em 1970, o músico volta ao Rio para trabalhar como produtor em outra gravadora, a CBS. Nesta produtiva fase, o roqueiro baiano se envolveu na feitura de discos de Jerry Adriani, Leno e Lilian, Diana, dentre outras estrelas da época. Sua contribuição à Jovem Guarda não parou por aí – Raul compôs mais de 80 músicas, como os sucessos “Ainda Queima a Esperança”, “Sha-la-la-la”, “Doce, Doce, Doce Amor” e “Tudo Que é Bom Dura Pouco”.
Em um ato de rebeldia, em que aproveitou a ausência do presidente da CBS, Raulzito gravou seu segundo LP, em parceria com Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada. O subversivo “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez” foi posteriormente retirado do mercado por não seguir o padrão de produtos da gravadora. Após perder o emprego, o roqueiro baiano participou do Festival Internacional da Canção de 1972, realizado pela Rede Globo, com duas músicas: o baião-rockabilly “Let Me Sing, Let Me Sing” e “Eu Sou Eu Nicuri É o Diabo”. Depois da projeção nacional que o evevnto lhe proporciounou além do lançamento do hit “Ouro de Tolo”, em 1973 Raul é contratado pela Philips, através da qual emplaca seus primeiros grandes sucessos como “Mosca na Sopa”, “Al Capone” e o hino “Metamorfose Ambulante”, todos reunidos no mítico disco “Krig-Ha, Bandolo”, que marcou o início de sua parceria criativa com o escritor Paulo Coelho.
Já desfrutando do reconhecimento como singular cantor e compositor, de letras irreverentes e debochadas, Raul viveu um drama ao lado do amigo Paulo Coelho. Por promover a filosofia da utópica Sociedade Alternativa em seus shows, ele é detido pelo governo militar e torturado, para depois ser exilado nos Estados Unidos. O músico só voltaria ao País após o megasucesso do LP “Gita”, de 1974, que vendeu 600.000 exemplares e lhe valeu um inédito disco de ouro em sua carreira. No mesmo ano, Raulzito se separa de sua primeira esposa, Edith Wisner, mãe de sua filha Simone.
Em 1975, com a carreira consolidada, Raul Seixas grava o disco “Novo Aeon”, que apresentou ao Brasil outra de suas canções mais memoráveis: “Tente Outra Vez”, um verdadeiro hino de auto-superação. Na época, o baiano se casa com Glória Vaquer. No auge da produtividade artística e tendo conquistado uma sólida base de fãs e admiradores, Raul lança, em 1976, “Há Dez Mil Anos Atrás”, cuja faixa “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás” figura entre as mais marcantes composições da música brasileira.
Em 1977, Raul migra para a gravadora WEA, com a qual lança três álbuns – “O Dia Em Que a Terra Parou”, “Mata Virgem” e “Por Quem Os Sinos Dobram” -, que apesar de não agradar à crítica, foram um grande sucesso comercial. Nesta safra, emplacou novos hits em seu repertório: a hippie “Maluco Beleza”, a anárquica “Aluga-se” e ainda “Rock das Aranhas”, todas compostas em parceria com Cláudio Roberto. Mas é a partir de 1978 que Raulzito começa a sofrer de problemas relacionados ao alcoolismo, que lhe compromete 1/3 do pâncreas. Após se separar de Glória, o músico vai aos EUA e leva a filha Scarlet; na mesma época, conhece Tania Menna Barreto, com quem vive um curto relacionamento até 1979. Este ano foi marcado pela depressão de Raul, seguido de sua internação em decorrência de seu excessivo consumo de álcool; em meio a esse conturbado período em sua vida, o baiano conhece Angela Afonso Costa, que seria conhecida como Kika Seixas, sua quarta companheira.
Apesar da constante mudança de gravadoras e da luta contra o alcoolismo, Raul se manteve como artista em evidência ao longo da década de 80: lança os LPs “Abre-te Sésamo”, “Raul Seixas”, “Metrô Linha 743″, “Uah-bap-lu-bap-lah-bdim-bum!” e “A Pedra do Gênesis”. Entre a produção de um disco e outro, o Maluco Beleza festejou o nascimento de Vivian, sua terceira filha, fruto do casamento com Kika, e conheceu Lena Coutinho, que passou a ser sua nova companheira.
No final dos anos 80, Raulzito figura entre especiais do “Fantástico” (embalado pelo sucesso do musical “Plunct! Plact! Zum”) e ainda viaja pelo País numa turnê de 50 shows ao lado de Marcelo Nova, vocalista do grupo baiano Camisa de Vênus. Esta seria sua última parceria criativa, com quem lançou seu último álbum, “A Panela do Diabo”. Em 21 de agosto de 1989, aos 44 anos, o baiano morre por parada cardíaca, decorrente de uma pancreatite aguda fatal (consequente do agravamento de seu alcoolismo). “A Panela do Diabo”, que chegou às lojas no dia seguinte à sua morte, vendeu 150.000 cópias e garantiu mais um disco de ouro para a brilhante carreira do músico.

O segundo disco solo de Cazuza, “Só Se For a Dois”, foi lançado pela Polygram em março de 1987, e já trazia indícios do amadurecimento profissional e da evolução artística do jovem poeta. No repertório, canções como a dançante “O Nosso Amor a Gente Inventa (Estória Romântica)” e a romântica faixa-título, além de “Ritual” e “Solidão Que Nada”, garantiram os elogios da crítica especializada e da crescente legião de fãs. A turnê do disco apresentava um Cazuza mais solto e confiante, lotando shows e emocionando plateias pelo Brasil. Porém, atingindo o ápice de sua carreira como cantor e compositor, o carioca descobre que é portador do vírus HIV, após um novo exame que havia requisitado. O diagnóstico de AIDS transformaria a vida do músico.
Em outubro daquele ano, Cazuza é internado numa clínica do Rio de Janeiro para tratar de uma pneumonia, e em seguida viaja para Boston, nos EUA, onde fica durante dois meses, submetido a um tratamento à base de AZT, um dos primeiros medicamentos que surgiram para combater a AIDS. Quando volta ao Brasil, o cantor põe a mão na massa novamente: seu terceiro disco solo, “Ideologia”, foi lançado em 1988, e consagrado como uma das obras mais vigorosas e contundentes do rock brasileiro. Trazendo canções de letras fortes e evidenciando uma admirável versatilidade do compositor e intérprete, o álbum vendeu meio milhão de cópias, e imortalizou canções como “Faz Parte do Meu Show”, que flerta com a bossa nova; “Brasil”, um hino urbano em ritmo de samba; e a faixa-título “Ideologia”, que fala sobre alienação, desilusão e ainda faz referência à AIDS (“O meu prazer agora é risco de vida/ Meu sex and drugs não tem nenhum rock ‘n’ roll”). Cazuza estava no topo de sua carreira profissional: ainda em 1988, ele ganharia o Prêmio Sharp de Música nas categorias “Melhor Cantor Pop-Rock” e “Melhor Música Pop-Rock” por “Preciso Dizer Que Te Amo”.
apresentando uma performance mais contida e intimista de Cazuza que, mesmo visivelmente mais franzino, continuava esbanjando domínio de palco e magnetismo para as multidões de admiradores. Em 1989, é lançado “O Tempo Não Pára”, registro ao vivo desta turnê em disco e VHS, contendo a intensa canção homônima, um dos maiores clássicos do repertório do músico carioca. O álbum se tornou o maior sucesso comercial de Cazuza, ultrapassando a marca de 500 mil cópias vendidas.
um ato de extrema importância conscientizadora para a sociedade, especialmente porque se tratava da primeira personalidade brasileira a fazê-lo. Assumindo uma postura serena, o músico não se deixa lamentar pelo inevitável, e passa a aproveitar o tempo que ainda lhe restava para compor compulsivamente. O álbum duplo “Burguesia” foi o último de sua meteórica trajetória, gravado quando ele já estava numa cadeira de rodas. Transitando entre o rock e a MPB, seu derradeiro registro discográfico vendeu 250 mil cópias e lhe garantiu mais um Prêmio Sharp de Música, pela canção “Cobaias de Deus”.
1990, no mesmo hospital de Boston. Em 7 de julho daquele mesmo ano, não resistindo aos danos causados pelo vírus HIV, Cazuza morre. Era o fim de uma vida intensa, de uma carreira brilhante. Aos 32 anos, o jovem Agenor deixava familiares, amigos e fãs desolados com sua trágica partida. Seu enterro foi acompanhado por mais de mil pessoas, e seu caixão foi levado à sepultura pelos ex-companheiros do Barão Vermelho – Roberto Frejat, Maurício Barros, Dé e Guto Goffi -, que ainda dedicariam uma música ao velho amigo, “O Poeta Está Vivo”, presente no disco “Na Calada da Noite”.

No início da década de 80, o jovem Agenor, ou Cazuza, como preferia ser chamado, finalmente encontrou uma atividade que o satisfazia. Ao ingressar no grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, ele descobriu seu potencial como intérprete musical. Ciente do talento de Cazuza, o cantor Léo Jaime já sabia o que fazer: convidou o rapaz para comparecer a um ensaio do Barão Vermelho, uma banda de rock que estava apenas começando e precisava de um vocalista. Em 1981, Cazuza se apresentou a Roberto Frejat, Dé, Guto Goffi e Maurício Barros – os jovens que compunham o Barão Vermelho – e surpreendeu a todos com sua postura performática, atitude roqueira e os vocais berrados, ideais para o rock cru de garagem que o quarteto fazia. Naquele momento, Cazuza era exatamente o que os garotos do Barão procuravam – nascia ali uma das maiores bandas do rock brasileiro, e também uma das parcerias mais produtivas da música pop nacional: Frejat e Cazuza.
Descobertos pelo produtor Ezequiel Neves, os garotos convenceram José Araújo, o pai de Cazuza, que naquela época era presidente da gravadora Som Livre, a lançar um disco do grupo. “Barão Vermelho” e “Barão Vermelho 2″ foram os primeiros passos de uma carreira brilhante – o Brasil conhecia a voz marcante de Cazuza, que poderia cantar um rock agitado e uma balada romântica com a mesma desenvoltura. À frente do Barão, o jovem cantor representava o frescor da nova geração de músicos e compositores brasileiros, oferencendo à juventude um rock genuinamente nacional com sua atitude ousada, suas performances intensas, e suas letras honestas e de forte apelo entre os jovens. “Pro Dia Nascer Feliz”, “Bete Balanço” e “Maior Abandonado” foram alguns dos sucessos do Barão que se tornaram verdaderos hinos dos anos 80.
Depois da conquista do sucesso e o estouro nas rádios, as diferenças entre os integrantes do grupo se ressaltaram, e os desentendimentos entre Cazuza e os outros passaram a ser constantes. A correria dos shows e a agenda sobrecarregada de compromissos como ensaios e entrevistas pressionavam os rapazes e acalouravam os ânimos na banda. Em julho de 1985, alguns meses depois de uma bem-sucedida apresentação no festival Rock In Rio, Cazuza anunciava sua saída do Barão Vermelho, buscando maior liberdade para compor e se expressar musicalmente. A banda continuaria sob liderança do guitarrista Roberto Frejat.
HIV, mas o resultado fora negativo. Esse tipo de diagnóstico ainda não era muito preciso naquela época. Em novembro de 1985, Cazuza estreia sua carreira solo com o disco “Exagerado”, que trouxe composições feitas em parceria com outros amigos do cantor, como Lobão (“Mal Nenhum”) e Leoni (“Exagerado”), e lançou uma das canções mais marcantes de sua carreira: a apaixonante “Codinome Beija-Flor”. Outra faixa que merece destaque é a polêmica “Só As Mães São Felizes”, cuja execução pública foi proibida pela censura devido ao conteúdo da letra, que trazia trechos como: “Você nunca sonhou ser currada por animais? (…) Nem quis comer sua mãe?”.

Filho do produtor fonográfico João Araújo e da costureira Maria Lúcia Araújo, Agenor de Miranda Araújo Neto nasceu no dia 4 de abril de 1958, no Rio de Janeiro. Já em sua infância, vivida no bairro de Ipanema, o pequeno Agenor esteve em constante contato com a música brasileira: inserido no ambiente profissional do pai, ele cresceu em volta de grandes artistas da MPB, como João Gilberto, Caetano Veloso, Elis Regina e Gilberto Gil. Além disso, o garoto foi influenciado pelas canções melancólicas de Cartola, Maysa, Dolores Duran, Noel Rosa e Lupicínio Rodrigues, até que tomou gosto pela poesia e passou a escrever letras e poemas, que mostrava à sua avó materna.

jovem Agenor abraça a boemia carioca do Baixo Leblon e torna-se um adolescente de temperamento forte. Cazuza chegou a prestar vestibular para Comunicação somente para receber um carro que seu pai havia lhe prometido, largando o curso em menos de um mês de aula. Suas noitadas regadas a sexo, drogas e rock n’ roll obrigavam seu pai a livrá-lo de prisões e fichas na polícia, e sua postura expansiva e assumidamente bissexual chocava sua mãe. Em 1976, preocupado em manter o filho longe de arruaças, João Araújo lhe arranjou um trabalho na gravadora Som Livre, no departamento artístico e posteriormente na assessoria de imprensa da empresa. Mas Cazuza não se satisfazia em nenhuma dessas ocupações; ele chegou até a cursar fotografia na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, e ensaiou uma carreira de fotógrafo, mas ainda não era o ofício que o realizava profissionalmente.
De volta ao Rio de Janeiro, o rebelde Cazuza finalmente encontrou uma atividade para canalizar seu potencial adormecido – convidado pelo ator Perfeito Fortuna, ele integra o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, no qual passa a cursar teatro. Na montagem da peça “Pára-quedas do coração”, sua conclusão de curso, Cazuza soltou a voz, e naquele momento descobria o seu talento para cantar. Observado pelo cantor e compositor Léo Jaime, mal sabia Cazuza que seu destino seria ganhar os palcos musicais pelo Brasil afora.

Em 1992, o Barão Vermelho estava na crista da onda: depois de ganharem o Prêmio Sharp de “Melhor Conjunto de Rock” e serem eleitos a melhor banda do festival Hollywood Rock, os cariocas sentiam novamente o gostinho do sucesso. Naquele mesmo ano, o grupo gravava o disco “Supermercados da Vida”, que trouxe participações de artistas como Guilherme Arantes e Pauliho Moska e seguiu o caráter acústico da obra anterior, “Na Calada da Noite”. Músicas como “Flores do Mal” e “Pedra, Flor e Espinho” rechearam o repertório consistente deste álbum, em que o baixista Dadi foi substituído por Rodrigo Santos, que havia tocado com o roqueiro Lobão. Dois anos depois, em 1994, o Barão lança “Carne Crua”, outro disco bastante cultuado dentre os fãs do rock nacional. Além da parceria entre Frejat e Raul Seixas na faixa “Pergunte ao Tio José”, o álbum ainda emplacou as músicas “Meus Bons Amigos”, “Guarde Essa Canção” e “Daqui Por Diante”.
Em 1996, mantendo uma base sólida de fãs e uma sequência produtiva de discos, o Barão Vermelho grava “@lbum”, obra repleta de versões modernizadas para músicas que os integrantes do grupo ouviam na infância. Os destaques do disco vão para “Perdidos na Selva”, do New Wave, e o hit “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo”, canção da Jovem Guarda que ganhou nova vida e estourou nas rádios com o groove e o vigor que só o Barão poderia gerar.
Mantendo o intervalo de dois anos entre um disco e outro, o Barão lança o ousado “Puro Êxtase” em 1998. Repleto de elementos oriundos da música eletrônica, o álbum não foi tão bem recebido pelo velhos fãs, que queriam a velha pegada rock n’ roll, mas ajudou a banda a conquistar novos admiradores. A canção que dá nome ao disco, por exemplo, foi, ao lado de “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo”, o maior sucesso radiofônico da banda na década de 90. No ano seguinte, em 1999, o Barão lançou o CD “Balada MTV”, gravado no programa de televisão homônimo. A obra trouxe versões repletas de percussão, cordas e sopro para grandes sucessos da carreira dos cariocas, como “Pedra, Flor e Espinho”, “O Poeta Está Vivo”, “Por Você”, e “O Tempo Não Pára”, lembrando o falecido Cazuza.
A reunião só ocorreria em 2004, quando o grupo lança “Barão Vermelho”, disco que representou um retorno às raízes sonoras da banda, com petardos essencialmente rock n’ roll como “Cuidado” e “A Chave da Porta da Frente”. Mas depois de gravar um “MTV Ao Vivo”, no qual o destaque foi uma versão de “Codinome Beija-Flor” com participação especial de Cazuza (através de uma gravação, obviamente), o Barão anunciou sua segunda pausa em 2007, para novamente retomarem projetos solo. Não há previsão de retorno.
O Barão Vermelho nasceu de um sonho partilhado entre um bando de moleques do Rio de Janeiro que amavam o bom e velho rock n’ roll, e se tornou um dos grupos mais emblemáticos da década de 80, considerado hoje uma verdadeira instituição da música pop nacional. A inigualável parceria Cazuza-Frejat produziu grandes sucessos radiofônicos com sensibilidade lírica e apelo para as massas, e influenciou toda a geração do rock brasileiro que veio em seguida. Os fãs aguardam ansiosos pela próxima investida dos roqueiros cariocas, mas Frejat e Cia não precisam provar mais nada – com uma discografia cultuada e uma trajetória admirável, eles já conquistaram o sonho de ser rockstars.


álbum da banda, “Rock n’ Geral”, com canções fortemente influenciadas pelo blues e uma maior participação dos outros integrantes do grupo nas composições. O disco foi bastante elogiado pela crítica, mas a qualidade das músicas não refletiu nos números: “Rock n’ Geral” não passou das 15 mil cópias vendidas. Ainda em 1987, outra despedida: o tecladista Maurício Barros deixa o Barão Vermelho, que ganha os reforços do percussionista Peninha e do guitarrista Fernando Magalhães.
Com a nova formação (que mantinha apenas três integrantes originais), o Barão Vermelho tratou de botar a mão na massa: em 1988, lançou o agitado disco “Carnaval”, que misturou rock pesado e letras românticas. A música “Pense e Dance” estourou nas rádios e na TV, onde era veiculada na trilha sonora da novela global “Vale Tudo”. Finalmente o Barão estava no topo de novo, e o sucesso de seu quinto álbum deu ao grupo a oportunidade de abrir a turnê do cantor Rod Stewart no Brasil. Embalados pelo resgate de sua popularidade, os roqueiros produziram seu primeiro disco ao vivo – “Barão Ao Vivo”, de 1989, foi gravado durante três dias em São Paulo, trazendo performances de sucessos da banda como “Bete Balanço” e “Pro Dia Nascer Feliz”, além de uma versão de “Satisfaction”, dos ídolos Rolling Stones. No mesmo ano, a Som Livre oportunamente lançou a coletânea “Os melhores momentos de Cazuza e o Barão Vermelho”, que dentre os sucessos absolutos do grupo trazia canções raras como “Eclipse Oculto” e “Eu Queria Ter Uma Bomba”, antes encontrada somente na trilha sonora da novela “A Gata Comeu”, de 1985.
constantes brigas com Frejat, o baixista Dé anuncia sua saída, sendo substituído por Dadi, ex-membro dos cultuados Novos Baianos. Curiosamente, Maurício Barros retorna aos teclados como músico convidado nas turnês do Barão. No mesmo ano, os roqueiros cariocas gravaram “Na Calada da Noite”, álbum que privilegiou arranjos acústicos e trouxe a famosa música “O Poeta Está Vivo”, numa clara referência a Cazuza, que sofria os males da AIDS e morreria meses depois do lançamento do disco. Para coroar a boa fase que o Barão vivia, em 1991 o grupo foi eleito “Melhor Conjunto de Rock” no Prêmio Sharp, e em 1992 se consagra como a “Melhor Banda do Hollywood Rock”, festival musical que havia ocorrido naquele ano.

Depois do apoio explícito de nomes consagrados da música brasileira como Ney Matogrosso e Caetano Veloso, os rapazes do Barão Vermelho não apenas conquistaram definitivamente as ondas das rádios, como também foram convidados para compor a trilha sonora de um filme nacional. Dirigido por Lael Rodrigues e protagonizado pela atriz Débora Bloch, o longa “Bete Balanço”, de 1984, catapultou o Barão para a fama em escala nacional. Além de participar do filme ao lado de artistas daquela geração como Lobão e Titãs, a banda cantou a música-tema da produção, um hit absoluto que fez parte do terceiro e bem-sucedido disco de carreira, “Maior Abandonado”, que na época de lançamento vendeu mais de 100 mil cópias em seis meses. Com as canções “Por Que A Gente É Assim?”, “Dolorosa”, “Bete Balanço” e “Maior Abandonado”, o álbum é considerado o melhor da carreira do Barão por críticos e fãs, e ocupa um lugar todo especial no hall dos LPs clássicos do rock brasileiro.
Ainda em 1984, mais especificamente no dia 15 de setebro, o Barão faria uma de suas mais memoráveis apresentações: Cazuza, Frejat e Cia tocaram com a Orquestra Sinfônica Brasileira e o coro do Teatro Municipal do Rio para um público que lotou a Praça da Apoteose, na capital carioca. Não bastasse esse prestigiado show, logo em seguida os garotos foram convidados para subir ao palco do primeiro festival Rock In Rio, em janeiro de 1985, e se apresentaram no mesmo dia das atrações internacionais Yes, Nina Hagen e B52’s e dos conterrâneos Blitz, Erasmo Carlos e Gilberto Gil.
de intérprete e ter mais liberdade autoral nas composições. Ele era inclusive apoiado pelo parceiro Frejat, desde que não abandonasse o grupo. Porém, a inevitável saída do expansivo líder do Barão se deu de forma conturbada e nada amigável, causando forte abalo na relação entre Frejat e Cazuza, que só iriam se reconciliar anos mais tarde. Com a saída de seu carismático frontman, o Barão tomou um banho de água fria logo quando saboreava o gostinho do sucesso nacional. Mas o guitarrista Frejat chamou a responsabilidade para si e assumiu os vocais. Tinha início a segunda fase do Barão Vermelho, uma era de altos e baixos, mas sempre com muito rock n’ roll.


Aquele garoto magricela e cheio de atitude conquistou a todos do Barão Vermelho. Seu vocal berrante e intenso era o que os outros quatro integrantes tanto procuravam. Entusiasmado com sua aprovação, Cazuza aproveitou para apresentar algumas composições antigas que havia feito. Aos poucos, o grupo deixou as covers de lado e começou a trabalhar num repertóro autoral. A partir dali, tinha início uma das parcerias mais produtivas do rock nacional: Frejat e Cazuza, o núcleo criativo por trás das letras do Barão Vermelho.
ingresso dos garotos cariocas no mercado fonográfico nacional. Já no ano seguinte, a ascendente carreira do grupo, aliada ao entusiasmo e à produtividade da parceria Cazuza-Frejat, concebeu o disco “Barão Vermelho 2″, produzido durante um mês no estúdio. Muito embora o Barão fosse o primeiro grupo em anos que surgiu propondo um rock n’ roll com cara de Brasil, as rádios inicialmente rejeitaram o som dos cariocas, por acharem que as músicas careciam de apelo comercial. Somente depois que Ney Matogrosso gravou uma versão da agitada “Pro Dia Nascer Feliz” (do segundo álbum), e Caetano Veloso reconheceu Cazuza como um grande poeta e incluiu “Todo Amor Que Houver Nessa Vida” no repertório de seus shows, é que os garotos do Barão começaram a receber a atenção que mereciam das rádios.

Foram 32 discos em 28 anos de carreira. Regravações e homenagens prestadas por nomes como Paralamas do Sucesso, Lulu Santos, Jorge Ben Jor, Cássia Eller e Marisa Monte. Brigas por cachê travadas com casas de shows e gravadoras, além de intrigas com a Rede Globo. Shows tão divertidos quanto polêmicos, marcados por sua exigência técnica na qualidade de som. Tudo isso e uma irremediável coleção de vícios. “Não fumo, não bebo e não cheiro. Meu único defeito é que minto um pouco”, dizia Tim Maia, um dos maiores cantores da história da música brasileira, morto no dia 15 de março de 1998, em decorrência de uma infecção generalizada. Além de enfrentar problemas como obesidade e diabetes, o carioca de 55 anos chegava a consumir três garrafas de uísque por dia, além de cocaína e maconha.
No dia 8 de março de 1998, Tim Maia insistiu em cantar num show no Teatro Municipal de Niterói, no Rio de Janeiro, mesmo sabendo de sua saúde debilitada. Sobre o palco, passou mal e acabou sendo levado de ambulância para o Hospital Antônio Pedro. Vítima de um edema pulmonar seguido de parada cardiorrespiratória, o pai da soul music brasileira falecia sete dias depois da internação, sem ao menos se despedir da festa.
Apesar dos desafetos que acumulou ao longo de sua trajetória artística – e do incorrigível hábito de faltar a muitos shows -, o carioca do vozeirão foi um dos cantores mais importantes de sua época, trazendo influências do funk, do soul e da disco music para a música popular brasileira. O carisma, a personalidade e as excentricidades de Tim tornavam suas performances inesquecíveis. Sua brilhante e extensa discografia é cultuada fervorosamente até os dias de hoje, e canções como “Vale Tudo”, “Gostava Tanto de Você”, “Azul da Cor do Mar” e “O Descobridor dos Sete Mares” se encarregarão de apresentar, às próximas gerações, esse artista imortalizado nos anais do cancioneiro popular nacional.

Depois de largar a ideologia da Cultura Racional, Tim Maia lançou, em 1977, um novo disco homônimo, trazendo mais petardos da música brasileira imortalizados pelo seu vozeirão: “Verão Carioca”, “Venha Dormir em Casa” e “Não Esquente a Cabeça” resgataram o espírito das composições que marcaram o início da carreira do cantor. No ano seguinte, o inspirado carioca gravou a obra-prima “Tim Maia Disco Club”, pela Warner Music, e reafirmou sua relevância artística com um eterno sucesso de público – a hipnótica e dançante canção “Sossego”.
Nos anos 80, o pai da soul music brasileira já ostentava uma carreira admirável, lotava shows com fãs de todas as idades e era admirado pela crítica especializada. Em 1983, o já consagrado Tim gravou outra grande obra-prima de sua discografia: “O Descobridor dos Sete Mares”, que apresentava ao público as inesquecíveis interpretações do carioca para a melancólica “Me Dê Motivo”, de Paulo Massadas e Michael Sullivan, e a canção-título, composta por Michel e Gilson Mendonça.
contagiante composição própria do carioca. A coroação do talento e da importância de Tim para a música brasileira na época aconteceu em 1988, quando ele ganhou o Prêmio Sharp de Música na categoria “Melhor Cantor”. No discurso de agradecimento, Tim Maia, já conhecido por sua irreverência e veia humorística, disparou: “Eu gostaria de fazer uma homenagem ao meu urologista, o Dr. Edson, que me deixou ereto para o resto da vida”. A inusitada declaração foi uma referência à operação a que o músico se submeteu devido a uma infecção no saco escrotal.
Depois de gravar um disco interpretando clássicos da bossa nova, Tim Maia chegou à década de 90 precisando dar novo fôlego à sua carreira. Insatisfeito com as grandes gravadoras, o músico retomou seu selo, o Seroma, e sua gravadora própria, a Vitória Régia Discos, através da qual lançaria seus álbuns seguintes. Em 1992, o primeiro disco ao vivo de Tim passou sua brilhante discografia a limpo, trazendo “Vale Tudo”, “Sossego”, “Você e Eu, Eu e Você”, “Azul da Cor do Mar” e “Me Dê Motivo”, dentre outros hits eternizados no vozeirão do carioca. Mas foi no ano seguinte que Tim Maia voltou a receber merecida atenção de mídia e grande público: com a famosíssima citação de Jorge Ben Jor em sua canção “W/Brasil”, na qual apelida Tim de “síndico”; e com a regravação que o carioca fez para “Como Uma Onda”, de Lulu Santos e Nelson Motta, versão que estourou através de um comercial de TV e depois figurou no repertório do disco “Tim Maia” de 1993. Renovado, o cantor esbanjou produtividade nos anos seguintes, lançando mais de um álbum por ano e explorando cada vez mais suas composições românticas, porém sem deixar de fora o funk e o soul característicos de seu estilo.

Foi só no ano de 1969 que Tim Maia se projetou nacionalmente para o cenário da música brasileira. Com um novo compacto, desta vez gravado pela Fermata, o cantor apresentou duas canções resultantes de sua imersão no universo musical norte-americano: “These Are The Songs” e “What Do You Want To Bet”, que fizeram-no entrar na década de 70 com o pé direito. A visibilidade que esse novo trabalho lhe proporcionou resultou na gravação de seu primeiro LP, logo em 1970, pela Polygram. Intitulado apenas “Tim Maia”, o disco representou o triunfante ingresso daquele tijucano batalhador no hall das grandes revelações musicais do Brasil. Com sucessos estrondosos como “Azul da Cor do Mar”, “Coroné Antônio Bento” e “Primavera”, o LP ficou em primeiro lugar de vendas no Rio de Janeiro durante 24 semanas.
O talento do iniciante Tim logo chamou atenção de outros artistas do meio, especialmente da gaúcha Elis Regina, que o convidou para participar de um dueto para “These Are The Songs”, composição do cantor; o registro desse sublime encontro entre os dois pode ser conferido no disco “Em Pleno Verão”, de Elis. A partir de então, Tim Maia abraçou a disco music que tomava conta das baladas no início da década de 70 – seu segundo álbum, “Tim Maia Volume II” de 1971, trazia “Um Dia Eu Chego Lá”, “Você”, e a clássica “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)”, um dos maiores hinos das discotecas brasileiras. “Tim Maia Volume III”, lançado no ano seguinte, confirmou a boa forma e o momento inspirado do cantor carioca com canções como “Razão de Sambar”, “Where Is My Other Half” e “Lamento”. Em 1973, o incansável Tim ainda gravou “Tim Maia Volume IV”, cujo carro-chefe era a romântica “Gostava Tanto de Você”.
Depois de um brilhante início de carreira, o cantor mergulhou numa de suas fases mais controversas e fascinantes. Tim se encantou com a Cultura Racional, ideologia fundada pelo guru brasileiro Manoel Jacinto Coelho que prega o equilíbrio perfeito entre lógica e emoção e a existência de seres extraterrestres como irmãos dos humanos. Inspirado por sua conversão à seita Universo Em Desencanto, que divulga a Cultura Racional, o carioca passou a, ele mesmo, difundir esses pensamentos através de sua música. Entre 1975 e 1976, Tim Maia se transformou: passou a se vestir todo de branco, largou as drogas que consumia, teve um filho (Carmelo Maia), brigou com sua gravadora, e lançou dois discos antológicos – “Tim Maia Racional Vol. 1″ e “Tim Maia Racional Vol. 2″ – através de seu selo próprio, o Seroma. O repertório doutrinário, com letras confusas cheias de referências à filosofia da Universo Em Desencanto, não é tão levado em conta quando os dois álbuns da “fase Racional” são elevados ao status de cult pela crítica – são as melodias bem produzidas, transitando entre o funk e o soul, que conquistam o ouvinte em pérolas como “Imunização Racional (Que Beleza)”, “Rational Culture”, e “Que Legal”.
Com o tempo, porém, Tim Maia se desiludiu com a Cultura Racional e o guru Jacinto Coelho, deixando a seita e chegando a tirar de circulação as cópias dos volumes 1 e 2 de “Tim Maia Racional”, que pelos anos seguintes se tornaram itens de colecionador.
Sebastião Rodrigues Maia nasceu no dia 28 de setembro de 1942, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. Caçula dos doze filhos de Seu Altivo Maia e Maria Imaculada Maia, o garotinho trabalhava como entregador de marmitas para ajudar o pai, dono de uma pensão. Apelidado de Tião Marmiteiro pelos meninos da vizinhança, muitas vezes ele deixava seu compromisso para jogar futebol na rua. O moleque travesso surpreendeu sua numerosa família quando demonstrou interesse pela música, compondo melodias próprias ainda na infância; mas a iniciação musical daquele que seria o pai da soul music brasileira ocorreu na adolescência: aos 14 anos, o jovem Tim formou sua primeira banda, batizada de “Os Tijucanos do Ritmo”, na qual inicialmente tocava bateria, mas logo assumiu o violão. Essa empreitada musical, porém, durou apenas um ano.
Sua segunda investida musical foi em 1957, quando, depois de se familiarizar com o violão, fundou o grupo de rock “Os Sputniks”, que trazia outros nomes até então desconhecidos da música brasileira, como Arlênio Silva, Wellington, Edson Trindade e um certo Roberto Carlos. Dois anos depois, porém, Tim Maia decidiu largar tudo e viajar para os Estados Unidos, com apenas alguns dólares no bolso. Sem ter onde ficar na terra do Tio Sam, o aventureiro Tim, com 17 anos na época, teve a sorte de conhecer uma família suburbana que o acolheu. Essa inconsequente e irresponsável jornada do garoto carioca pelos EUA, porém, foi muito importante para o seu amadurecimento artístico – além de estudar inglês, Tim Maia entrou em contato com o rico universo da música negra norte-americana, chegando até a integrar uma banda local de rhythm n’ blues, intitulada “The Ideals”. Depois de quatro anos nos Estados Unidos, o jovem Tim foi preso por porte de maconha e deportado de volta para o Brasil.
Em 1968, o músico carioca finalmente foi descoberto pela indústria fonográfica, e lançou seu primeiro trabalho como profissional solo – um compacto gravado pela CBS trazendo as músicas “Meu País” e “Sentimento”, ambas composições próprias de Tim Maia.
Mesmo na crista da onda do showbusiness nacional, Cássia Eller não se acomodava no sucesso; seu espírito artisticamente inquieto concebeu “Veneno Antimonotonia” em 1997, seu quinto disco, que trazia somente versões para canções de Cazuza, numa brilhante homenagem ao poeta da música brasileira. Entusiasmada com seu novo trabalho, a cantora revelou em entrevista que o disco “foi um p*** trabalho e a gente estava com uma banda afiada”. Em 1998, veio mais um registro ao vivo – o disco “Veneno Vivo”, gravado durante a turnê de “Veneno Antimonotonia”.
1999 foi um ano de transformação artística para Cássia: com o empresário Leonardo Netto, a cantora surpreendeu público e crítica ao destacar músicas da MPB em seu repertório, valorizando uma faceta sensível até então ofuscada pelo vigor de sua atitude roqueira. No disco “Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo”, a suavidade vocal que consagrou sua interpretação de “Por Enquanto”, no início da carreira, volta a ser explorada em canções de Gilberto Gil (“Pedra Gigante”), Caetano Veloso (“Gatas Extraordinárias”) e Marisa Monte (“Um Branco, Um xis, Um Zero”). A produção do álbum ficou a cargo de Nando Reis, que ainda integrava o Titãs na época e contribuiu com quatro faixas – inclusive “O Segundo Sol”, outro grande medalhão do repertório de Cássia. “Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo” vendeu mais de 300 mil cópias em três meses, mais uma marca até então inédita na carreira da carioca. O sucesso desse flerte com a MPB ainda inspirou o lançamento de outro álbum, no ano 2000: “Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo – Ao Vivo”.
Depois da incursão pelo universo da música popular brasileira, Cássia voltou ao bom e velho rock n’ roll com o despretensioso “Cássia Rock Eller”, que reuniu repertório diversificado, do colega Lobão ao lendário Jimi Hendrix. Já em 2001, veio o aclamado “Acústico MTV”, que revisitou grandes momentos da carreira da cantora numa atmosfera intimista e descontraída. Este álbum, que seria seu último trabalho, ultrapassou a impressionante marca de 400 mil cópias vendidas, e resgatou a popularidade de hits passados como “Malandragem” e “Por Enquanto”, que voltaram a estourar nas rádios em suas versões acústicas. O DVD deste “Acústico MTV” também foi um sucesso, e se tornou o produto mais vendido da gravadora Universal em 2001.
Mas paralelo à imagem bem-humorada e irreverente que Cássia Eller cultivava na mídia, um grande problema sempre causava atrito na vida familiar da cantora: seu consumo descontrolado de drogas. O estado alterado em que ela ficava deixava sua companheira Maria Eugênia e seu filho Chicão muito nervosos. “Durante a gravidez parei porque, milagrosamente, enjoei de cigarro, café, maconha, de tudo. Cocaína, então, lógico. Não ia fazer uma coisa dessas. Aí o Chicão nasceu, amamentei e depois caí de novo na farra”, confessou a cantora numa entrevista. Cássia chegou a frequentar sessões de acupuntura para largar o vício em cocaína.
Por isso, quando foi anunciado que a cantora havia falecido por parada cardiorrespiratória no dia 29 de dezembro de 2001, no Rio, todos acreditavam que a causa eram as drogas. Mas a hipótese de overdose foi descartada pelo Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro, já que ficou provado que a cantora não havia ingerido nenhum tipo de droga. Foi apontada morte por stress decorrente de excesso de trabalho. “Ela está trabalhando muito. Em sete meses, fez mais de cem shows”, dizia o empresário da cantora.

A essa altura, com a exposição na TV e nos jornais, que já a anunciavam como porta-voz da nova geração do rock brasileiro nos anos 90, Cássia Eller assumia publicamente sua homossexualidade, sem porém levantar nenhuma bandeira. Mas um de seus casos com homens provocou uma das maiores transformações de sua vida: em 1993, nasceu Francisco Ribeiro Eller, o Chicão, fruto de um curto relacionamento de Cássia com o baixista Tavinho Fialho, que havia participado da gravação do disco “O Marginal” e falecia no mesmo ano em decorrência de um acidente automobilístico. Naquele momento, a cantora carioca de carreira ascendente se via numa situação completamente nova: a maternidade.
Sobre a maturidade que o repentino papel de mãe exigiu, Cássia declarou: “O peso maior foi o da responsabilidade… Sempre fui meio moleque e irresponsável, mas uma criança obriga você a ser responsável. Tenho que garantir um ambiente saudável, a alimentação, tudo para que ele possa viver bem. Agora até acho legal ter responsabilidade!”.
Entre clássicos do rock brasileiro de autoria de Raul Seixas e Renato Russo, o disco trazia uma pérola: composta por Cazuza e Frejat, a música “Malandragem” ganhava vida na voz crua e pujante da intérprete. Originalmente, a dupla de compositores tinha oferecido a canção para a cantora Ângela Rô Rô, mas esta recusou a oferta. Anos mais tarde, Frejat levou “Malandragem” para Cássia, que agarrou o presente e o transformou numa das músicas mais populares da década de 90. Com a produção caprichada de Guto Graça Melo, que conseguiu extrair do potencial da carioca uma de suas melhores performances em estúdio, “Cássia Eller” vendeu mais de 230 mil cópias em todo o Brasil, a maior marca atingida pela cantora até então.
Em 1996, Cássia Eller lançou o álbum “Ao Vivo”, um registro muito bem produzido de sua atuação sobre os palcos. Gravado a partir de shows no Canecão (Rio de Janeiro) e Tom Brasil (São Paulo), este quarto disco de carreira captou a essência das apresentações intensas pelas quais a cantora ficou conhecida, e o ecletismo de seu repertório é comprovado por canções como “Eu Sou Neguinha”, “Na Cadência do Samba” e “Coronel Antônio Bento”. Resenhando o “Ao Vivo”, o crítico musical Tárik de Souza publicou as seguintes palavras, no Jornal do Brasil: “Pode-se dizer que a Cássia definitiva – a que vai para o trono das melhores vozes da MPB – incorpora o peso do rock, a intensidade do blues e o balanço da bossa”.


Empolgada com o reconhecimento de seu talento, Cássia botou a mão na massa; fez diversos shows de blues com o guitarrista Victor Biglione, em mais uma investida que comprova o ecletismo de suas capacidades musicais. O crítico Mauro Trindade, do Jornal do Brasil, assitiu a uma apresentação da dupla e profetizou na época: “Show de blues demonstra que Cássia Eller chegou para arrasar. Mesmo estando há quatro meses com seu primeiro LP, só agora é que sua carreira vai, efetivamente, decolar”. A parceria da carioca com Biglione rendeu, inclusive, o álbum “Victor Biglione e Cássia Eller in Blues: If Six Was Nine”, ainda inédito no mercado.
Em 1992, veio o segundo álbum, intitulado “O Marginal”, que consolidou a jovem Cássia Eller como uma das melhores intérpretes de canções de Cazuza e Renato Russo, além de finalmente consagrar o timbre grave de sua voz como marca registrada. O disco trouxe covers competentes para as vigorosas “If Six Was Nine” e “Hear My Train Coming”, de Jimi Hendrix; a instrumental “Comédia”; e “O Marginal” e “Eles”, as únicas composições próprias que figuraram no repertório de Cássia – desde o início de sua carreira, a cantora assumiu sua postura de intérprete declarada. A inovação técnica ficou por conta de “Bobagem”, composição de Rita Lee, em cuja gravação foram utilizados quatro baixos, algo até então inédito.
Você está acompanhando o especial “Cássia Eller Sem Limites”, do projeto “Memória Mais Ação”. Amanhã você fica sabendo como foi produzida aquela que seria uma das interpretações mais brilhantes da cantora: a canção “Malandragem”. 
Tendo largado a escola antes de terminar o segundo grau, Cássia Eller se aventurou por diversos empregos: de garçonete a cozinheira, de redatora a tradutora, de ajudante de pedreiro a secretária do Ministério da Agricultura, ela experimentou de tudo um pouco. Este último emprego foi conseguido quando Cássia foi chamada para substituir uma amiga. “Fui demitida no terceiro dia. Aí resolvi só cantar”, declarou a cantora em uma entrevista concedida anos depois. No fundo, aquela garota sonhadora sempre teve certeza de que seguiria carreira como artista musical.
Ainda em Brasília, Cássia Eller cantou em um grupo de forró e ainda participou, durante dois anos, do Massa Real, o primeiro trio-elétrico do Planalto. Sem perceber, com esses primeiros trabalhos a jovem cantora não somente adquiria experiência, mas também aglutinava referências musicais diversas, que mais tarde a tornariam uma das artistas mais ecléticas e versáteis do Brasil. Através do Massa Real, por exemplo, Cássia teve contato com as nuances instrumentais e a percussão típica da música baiana.
Mas foi em 1983 que a carioca realizou seu primeiro grande show: integrando o grupo Malas & Bagagens, ela se apresentou no festival Rockway 2, que teve atrações como Raul Seixas, O Terço, Luís Guedes, e os garotos do Paralamas do Sucesso, que faziam seu primeiro show em Brasília. Este foi mais um passo importante para uma carreira que engatinhava com cada vez mais determinação.

Certamente você já deve ter ouvido esta canção, e muito provavelmente em sua versão mais conhecida, na voz de Cássia Eller, cantora carioca de vida intensa e atitudes polêmicas. “Malandragem”, a música em questão, foi um de seus maiores sucessos e uma de suas mais memoráveis interpretações, cuja letra filosofa sobre a desilusão e o desajuste em relação à realidade, sensações que permearam a vida dessa artista singular.
Cássia Rejane Eller nasceu no dia 10 de dezembro de 1962, no Rio de Janeiro (RJ), filha mais velha das cinco crianças da dona-de-casa Nancy Eller e do sargento pára-quedista do Exército Altair Eller. Devido ao ofício militar do pai, a garota mudou de endereço várias vezes, passando sua infância e adolescência em diversas cidades brasileiras. Já aos 6 anos foi morar em Belo Horizonte (MG); aos 10, foi para Santarém (PA), e aos 12 anos volta ao Rio. Cássia despertou interesse pela música quando, aos 14 anos, ganhou um violão de presente, com o qual aprendeu a tocar várias canções dos Beatles. A convivência com familiares e amigos músicos também contribuiu para impulsionar aquele hobby que fascinava a garota. Certa vez, numa entrevista, Cássia falou do ambiente musical em que vivia na infância: “Na minha casa se ouvia muita música. Minha avó materna tocava bandolim, todos na família da minha mãe tocavam instrumento e ela cantava. Cresci ouvindo minha mãe cantando enquanto arrumava a casa e comecei a cantar com ela. Aprendi a tocar violão com primos. Mas ninguém na família quis ser profissional”. A pequena garota, no entanto, já alimentava o sonho de ser cantora.
Quatro anos depois, a família Eller muda novamente de endereço, e desta vez vai para Brasília (DF). Com 18 anos na época, Cássia Eller chega à capital do país determinada a evoluir suas habilidades musicais técnicas e amadurecer seus planos de construir uma carreira profissional baseada no amor pela música. A carioca, então, embarca numa verdadeira cruzada no mundo musical: estuda canto lírico, faz testes para musicais, integra um coral e participa de óperas, inclusive de um espetáculo de Oswaldo Montenegro em 1981, que consistiu na primeira vez que a garota subiu num palco.
Além de Elis Regina, outra grande cantora do cenário musical brasileiro naquela época era Rita Lee, que durante muito tempo integrou a banda de rock Os Mutantes. Lee também se tornou grande amiga de Elis, chegando a apelidá-la de “Elis-cóptero”. Um dos momentos mais sublimes dessa amizade foi registrado pela TV Bandeirantes, que gravou um dueto das cantoras para a música “Doce de Pimenta” (composta por Rita Lee em homenagem a Elis) e o exibiu num especial televisivo de 1979. A gauchinha também mantinha boas relações com a baiana Gal Costa, que também despontava como fenômeno da música nacional.
Em 1982, a Pimentinha começava a trabalhar o repertório de um novo disco, que sairia pela gravadora Som Livre. Mas no dia 19 de janeiro, às 11h45, Elis Regina morria aos 36 anos vítima de intoxicação exógena aguda, provocada por overdose de cocaína, tranquilizantes e bebida alcoólica. De repente, o Brasil tinha perdido uma de suas mais ilustres artistas, a jovem gaúcha que encantou, revolucionou e ajudou a lapidar a música popular brasileira. Com a saudade, Elis deixou um legado que permanece vivo na nossa cultura. Sua voz, que equilibrava técnica e lirismo com perfeição, e sua atitude performática, que transformava cada show num espetáculo emocionante, influenciaram várias cantoras que viriam nos anos seguintes, de Adriana Calcanhoto a Daniel Mercury, de Leila Pinheiro a Vanessa da Mata. A própria filha da Pimentinha, Maria Rita, se consagrou como um dos nomes mais promissores da atual safra da MPB ao lançar seu primeiro disco em 2003.
Ela nasceu em 1945 com um dom. Aos 18 anos, descobriu que poderia viver desse dom, explorá-lo para emocionar pessoas em todo o mundo. Sua carreira de duas décadas se confunde com a história da música brasileira, suas canções foram trilha sonora da vida de toda uma nação. Ela era conhecida como Pimentinha, Elis-cóptero, ou, simplesmente, Elis. A eterna Elis Regina.
Este foi o especial “Simplesmente Elis”, que contou para você a belíssima trajetória de vida da talentosa cantora Elis Regina. 

Dois anos depois, em 1978, a Pimentinha participaria de um momento importantíssimo na história dos direitos autorais dos músicos no Brasil. Ao lado de nomes como Martinho da Vila, Marcos Vinícius e o marido César Camargo Mariano, Elis funda a ASSIM (Associação de Intérpretes e Músicos). Naquele mesmo ano, a cantora levaria seu espetáculo mais recente, “Transversal do Tempo”, para a Europa. Ciente da visão estereotipada dos europeus em relação à música e à cultura brasileiras, Elis inicia seu show no Teatro Lírico, de Milão, com o discurso: “Carmen Miranda morreu nos anos 50. A Europa precisa entender que não somos um povo só de carnaval. Temos a nossa tristeza. E eu não vim aqui para fazer concessões. Vou cantar exatamente o que canto em meu país”.