MEMÓRIA MAIS AÇÃO: O poeta sempre estará vivo.
junho 1st, 2009, por admin

O segundo disco solo de Cazuza, “Só Se For a Dois”, foi lançado pela Polygram em março de 1987, e já trazia indÃcios do amadurecimento profissional e da evolução artÃstica do jovem poeta. No repertório, canções como a dançante “O Nosso Amor a Gente Inventa (Estória Romântica)” e a romântica faixa-tÃtulo, além de “Ritual” e “Solidão Que Nada”, garantiram os elogios da crÃtica especializada e da crescente legião de fãs. A turnê do disco apresentava um Cazuza mais solto e confiante, lotando shows e emocionando plateias pelo Brasil. Porém, atingindo o ápice de sua carreira como cantor e compositor, o carioca descobre que é portador do vÃrus HIV, após um novo exame que havia requisitado. O diagnóstico de AIDS transformaria a vida do músico.
Em outubro daquele ano, Cazuza é internado numa clÃnica do Rio de Janeiro para tratar de uma pneumonia, e em seguida viaja para Boston, nos EUA, onde fica durante dois meses, submetido a um tratamento à base de AZT, um dos primeiros medicamentos que surgiram para combater a AIDS. Quando volta ao Brasil, o cantor põe a mão na massa novamente: seu terceiro disco solo, “Ideologia”, foi lançado em 1988, e consagrado como uma das obras mais vigorosas e contundentes do rock brasileiro. Trazendo canções de letras fortes e evidenciando uma admirável versatilidade do compositor e intérprete, o álbum vendeu meio milhão de cópias, e imortalizou canções como “Faz Parte do Meu Show”, que flerta com a bossa nova; “Brasil”, um hino urbano em ritmo de samba; e a faixa-tÃtulo “Ideologia”, que fala sobre alienação, desilusão e ainda faz referência à AIDS (“O meu prazer agora é risco de vida/ Meu sex and drugs não tem nenhum rock ‘n’ roll”). Cazuza estava no topo de sua carreira profissional: ainda em 1988, ele ganharia o Prêmio Sharp de Música nas categorias “Melhor Cantor Pop-Rock” e “Melhor Música Pop-Rock” por “Preciso Dizer Que Te Amo”.

Dirigida por Ney Matogrosso, a turnê de “Ideologia” viajou por todo o paÃs,
apresentando uma performance mais contida e intimista de Cazuza que, mesmo visivelmente mais franzino, continuava esbanjando domÃnio de palco e magnetismo para as multidões de admiradores. Em 1989, é lançado “O Tempo Não Pára”, registro ao vivo desta turnê em disco e VHS, contendo a intensa canção homônima, um dos maiores clássicos do repertório do músico carioca. O álbum se tornou o maior sucesso comercial de Cazuza, ultrapassando a marca de 500 mil cópias vendidas.
Em fevereiro de 1989, Cazuza assumia publicamente ser soropositivo. Numa época em que a prevenção da doença ainda não era tão difundida, este foi
um ato de extrema importância conscientizadora para a sociedade, especialmente porque se tratava da primeira personalidade brasileira a fazê-lo. Assumindo uma postura serena, o músico não se deixa lamentar pelo inevitável, e passa a aproveitar o tempo que ainda lhe restava para compor compulsivamente. O álbum duplo “Burguesia” foi o último de sua meteórica trajetória, gravado quando ele já estava numa cadeira de rodas. Transitando entre o rock e a MPB, seu derradeiro registro discográfico vendeu 250 mil cópias e lhe garantiu mais um Prêmio Sharp de Música, pela canção “Cobaias de Deus”.
Cada vez mais abatido e fragilizado pela AIDS, Cazuza é novamente levado aos Estados Unidos em outubro de 1989, e fica internado até março de
1990, no mesmo hospital de Boston. Em 7 de julho daquele mesmo ano, não resistindo aos danos causados pelo vÃrus HIV, Cazuza morre. Era o fim de uma vida intensa, de uma carreira brilhante. Aos 32 anos, o jovem Agenor deixava familiares, amigos e fãs desolados com sua trágica partida. Seu enterro foi acompanhado por mais de mil pessoas, e seu caixão foi levado à sepultura pelos ex-companheiros do Barão Vermelho – Roberto Frejat, MaurÃcio Barros, Dé e Guto Goffi -, que ainda dedicariam uma música ao velho amigo, “O Poeta Está Vivo”, presente no disco “Na Calada da Noite”.
No mesmo ano da morte de seu filho, João Araújo e Lucinha fundaram a Sociedade Viva Cazuza, ONG comprometida no combate à AIDS e dedicada a cuidar de crianças soropositivas provendo lazer, saúde e educação. A batalha de Cazuza contra o vÃrus HIV nunca mais seria esquecida.

Como diz a canção-tributo do Barão, o poeta ainda está vivo. Suas composições lapidaram o rock nacional dos anos 80 e construÃram uma sólida base de influências para os roqueiros adolescentes das gerações seguintes. O poeta sempre estará vivo porque seu legado é imortal – suas poesias, músicas e álbuns serão apreciados eternamente.
Este foi o especial “Cazuza – O Poeta Está Vivo”, do projeto “Memória Mais Ação”. Para ver todos os posts anteriores, clique aqui.


No inÃcio da década de 80, o jovem Agenor, ou Cazuza, como preferia ser chamado, finalmente encontrou uma atividade que o satisfazia. Ao ingressar no grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, ele descobriu seu potencial como intérprete musical. Ciente do talento de Cazuza, o cantor Léo Jaime já sabia o que fazer: convidou o rapaz para comparecer a um ensaio do Barão Vermelho, uma banda de rock que estava apenas começando e precisava de um vocalista. Em 1981, Cazuza se apresentou a Roberto Frejat, Dé, Guto Goffi e MaurÃcio Barros – os jovens que compunham o Barão Vermelho – e surpreendeu a todos com sua postura performática, atitude roqueira e os vocais berrados, ideais para o rock cru de garagem que o quarteto fazia. Naquele momento, Cazuza era exatamente o que os garotos do Barão procuravam – nascia ali uma das maiores bandas do rock brasileiro, e também uma das parcerias mais produtivas da música pop nacional: Frejat e Cazuza.
Descobertos pelo produtor Ezequiel Neves, os garotos convenceram José Araújo, o pai de Cazuza, que naquela época era presidente da gravadora Som Livre, a lançar um disco do grupo. “Barão Vermelho” e “Barão Vermelho 2″ foram os primeiros passos de uma carreira brilhante – o Brasil conhecia a voz marcante de Cazuza, que poderia cantar um rock agitado e uma balada romântica com a mesma desenvoltura. À frente do Barão, o jovem cantor representava o frescor da nova geração de músicos e compositores brasileiros, oferencendo à juventude um rock genuinamente nacional com sua atitude ousada, suas performances intensas, e suas letras honestas e de forte apelo entre os jovens. “Pro Dia Nascer Feliz”, “Bete Balanço” e “Maior Abandonado” foram alguns dos sucessos do Barão que se tornaram verdaderos hinos dos anos 80.
Depois da conquista do sucesso e o estouro nas rádios, as diferenças entre os integrantes do grupo se ressaltaram, e os desentendimentos entre Cazuza e os outros passaram a ser constantes. A correria dos shows e a agenda sobrecarregada de compromissos como ensaios e entrevistas pressionavam os rapazes e acalouravam os ânimos na banda. Em julho de 1985, alguns meses depois de uma bem-sucedida apresentação no festival Rock In Rio, Cazuza anunciava sua saÃda do Barão Vermelho, buscando maior liberdade para compor e se expressar musicalmente. A banda continuaria sob liderança do guitarrista Roberto Frejat.
HIV, mas o resultado fora negativo. Esse tipo de diagnóstico ainda não era muito preciso naquela época. Em novembro de 1985, Cazuza estreia sua carreira solo com o disco “Exagerado”, que trouxe composições feitas em parceria com outros amigos do cantor, como Lobão (“Mal Nenhum”) e Leoni (“Exagerado”), e lançou uma das canções mais marcantes de sua carreira: a apaixonante “Codinome Beija-Flor”. Outra faixa que merece destaque é a polêmica “Só As Mães São Felizes”, cuja execução pública foi proibida pela censura devido ao conteúdo da letra, que trazia trechos como: “Você nunca sonhou ser currada por animais? (…) Nem quis comer sua mãe?”.

Filho do produtor fonográfico João Araújo e da costureira Maria Lúcia Araújo, Agenor de Miranda Araújo Neto nasceu no dia 4 de abril de 1958, no Rio de Janeiro. Já em sua infância, vivida no bairro de Ipanema, o pequeno Agenor esteve em constante contato com a música brasileira: inserido no ambiente profissional do pai, ele cresceu em volta de grandes artistas da MPB, como João Gilberto, Caetano Veloso, Elis Regina e Gilberto Gil. Além disso, o garoto foi influenciado pelas canções melancólicas de Cartola, Maysa, Dolores Duran, Noel Rosa e LupicÃnio Rodrigues, até que tomou gosto pela poesia e passou a escrever letras e poemas, que mostrava à sua avó materna.

jovem Agenor abraça a boemia carioca do Baixo Leblon e torna-se um adolescente de temperamento forte. Cazuza chegou a prestar vestibular para Comunicação somente para receber um carro que seu pai havia lhe prometido, largando o curso em menos de um mês de aula. Suas noitadas regadas a sexo, drogas e rock n’ roll obrigavam seu pai a livrá-lo de prisões e fichas na polÃcia, e sua postura expansiva e assumidamente bissexual chocava sua mãe. Em 1976, preocupado em manter o filho longe de arruaças, João Araújo lhe arranjou um trabalho na gravadora Som Livre, no departamento artÃstico e posteriormente na assessoria de imprensa da empresa. Mas Cazuza não se satisfazia em nenhuma dessas ocupações; ele chegou até a cursar fotografia na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, e ensaiou uma carreira de fotógrafo, mas ainda não era o ofÃcio que o realizava profissionalmente.
De volta ao Rio de Janeiro, o rebelde Cazuza finalmente encontrou uma atividade para canalizar seu potencial adormecido – convidado pelo ator Perfeito Fortuna, ele integra o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, no qual passa a cursar teatro. Na montagem da peça “Pára-quedas do coração”, sua conclusão de curso, Cazuza soltou a voz, e naquele momento descobria o seu talento para cantar. Observado pelo cantor e compositor Léo Jaime, mal sabia Cazuza que seu destino seria ganhar os palcos musicais pelo Brasil afora.