MEMÓRIA MAIS AÇÃO: A eterna garotinha.
abril 3rd, 2009, por admin

Mesmo na crista da onda do showbusiness nacional, Cássia Eller não se acomodava no sucesso; seu espírito artisticamente inquieto concebeu “Veneno Antimonotonia” em 1997, seu quinto disco, que trazia somente versões para canções de Cazuza, numa brilhante homenagem ao poeta da música brasileira. Entusiasmada com seu novo trabalho, a cantora revelou em entrevista que o disco “foi um p*** trabalho e a gente estava com uma banda afiada”. Em 1998, veio mais um registro ao vivo – o disco “Veneno Vivo”, gravado durante a turnê de “Veneno Antimonotonia”.
1999 foi um ano de transformação artística para Cássia: com o empresário Leonardo Netto, a cantora surpreendeu público e crítica ao destacar músicas da MPB em seu repertório, valorizando uma faceta sensível até então ofuscada pelo vigor de sua atitude roqueira. No disco “Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo”, a suavidade vocal que consagrou sua interpretação de “Por Enquanto”, no início da carreira, volta a ser explorada em canções de Gilberto Gil (“Pedra Gigante”), Caetano Veloso (“Gatas Extraordinárias”) e Marisa Monte (“Um Branco, Um xis, Um Zero”). A produção do álbum ficou a cargo de Nando Reis, que ainda integrava o Titãs na época e contribuiu com quatro faixas – inclusive “O Segundo Sol”, outro grande medalhão do repertório de Cássia. “Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo” vendeu mais de 300 mil cópias em três meses, mais uma marca até então inédita na carreira da carioca. O sucesso desse flerte com a MPB ainda inspirou o lançamento de outro álbum, no ano 2000: “Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo – Ao Vivo”.
Confira abaixo o videoclipe de Cássia Eller para a música “O Segundo Sol”, do amigo Nando Reis.
Depois da incursão pelo universo da música popular brasileira, Cássia voltou ao bom e velho rock n’ roll com o despretensioso “Cássia Rock Eller”, que reuniu repertório diversificado, do colega Lobão ao lendário Jimi Hendrix. Já em 2001, veio o aclamado “Acústico MTV”, que revisitou grandes momentos da carreira da cantora numa atmosfera intimista e descontraída. Este álbum, que seria seu último trabalho, ultrapassou a impressionante marca de 400 mil cópias vendidas, e resgatou a popularidade de hits passados como “Malandragem” e “Por Enquanto”, que voltaram a estourar nas rádios em suas versões acústicas. O DVD deste “Acústico MTV” também foi um sucesso, e se tornou o produto mais vendido da gravadora Universal em 2001.
Mas paralelo à imagem bem-humorada e irreverente que Cássia Eller cultivava na mídia, um grande problema sempre causava atrito na vida familiar da cantora: seu consumo descontrolado de drogas. O estado alterado em que ela ficava deixava sua companheira Maria Eugênia e seu filho Chicão muito nervosos. “Durante a gravidez parei porque, milagrosamente, enjoei de cigarro, café, maconha, de tudo. Cocaína, então, lógico. Não ia fazer uma coisa dessas. Aí o Chicão nasceu, amamentei e depois caí de novo na farra”, confessou a cantora numa entrevista. Cássia chegou a frequentar sessões de acupuntura para largar o vício em cocaína.
Por isso, quando foi anunciado que a cantora havia falecido por parada cardiorrespiratória no dia 29 de dezembro de 2001, no Rio, todos acreditavam que a causa eram as drogas. Mas a hipótese de overdose foi descartada pelo Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro, já que ficou provado que a cantora não havia ingerido nenhum tipo de droga. Foi apontada morte por stress decorrente de excesso de trabalho. “Ela está trabalhando muito. Em sete meses, fez mais de cem shows”, dizia o empresário da cantora.

Aos 39 anos, Cássia Eller deixava o filho Chicão, de 8 anos, e Maria Eugênia, com quem sonhava se casar assim que a união civil de homossexuais fosse aprovada pelo Congresso Nacional. Através de seus álbuns e seu repertório eclético, a cantora imortalizou uma carreira apoiada na versatilidade musical, na espontaneidade e no carisma de uma legítima artista das massas. Suas apresentações sobre os palcos pelo Brasil afora serão sempre lembradas pelas performances excêntricas e contagiantes. Entre a ousadia artística de Rita Lee e a atitude visual de Pitty, encontram-se a rebeldia juvenil e a energia adolescente de Cássia Eller, a nossa eterna garotinha.
Este foi o especial “Cássia Sem Limites”, do projeto “Memória Mais Ação”. Para conferir tudo que já foi publicado anteriormente, clique aqui.


A essa altura, com a exposição na TV e nos jornais, que já a anunciavam como porta-voz da nova geração do rock brasileiro nos anos 90, Cássia Eller assumia publicamente sua homossexualidade, sem porém levantar nenhuma bandeira. Mas um de seus casos com homens provocou uma das maiores transformações de sua vida: em 1993, nasceu Francisco Ribeiro Eller, o Chicão, fruto de um curto relacionamento de Cássia com o baixista Tavinho Fialho, que havia participado da gravação do disco “O Marginal” e falecia no mesmo ano em decorrência de um acidente automobilístico. Naquele momento, a cantora carioca de carreira ascendente se via numa situação completamente nova: a maternidade.
Sobre a maturidade que o repentino papel de mãe exigiu, Cássia declarou: “O peso maior foi o da responsabilidade… Sempre fui meio moleque e irresponsável, mas uma criança obriga você a ser responsável. Tenho que garantir um ambiente saudável, a alimentação, tudo para que ele possa viver bem. Agora até acho legal ter responsabilidade!”.
Entre clássicos do rock brasileiro de autoria de Raul Seixas e Renato Russo, o disco trazia uma pérola: composta por Cazuza e Frejat, a música “Malandragem” ganhava vida na voz crua e pujante da intérprete. Originalmente, a dupla de compositores tinha oferecido a canção para a cantora Ângela Rô Rô, mas esta recusou a oferta. Anos mais tarde, Frejat levou “Malandragem” para Cássia, que agarrou o presente e o transformou numa das músicas mais populares da década de 90. Com a produção caprichada de Guto Graça Melo, que conseguiu extrair do potencial da carioca uma de suas melhores performances em estúdio, “Cássia Eller” vendeu mais de 230 mil cópias em todo o Brasil, a maior marca atingida pela cantora até então.
Em 1996, Cássia Eller lançou o álbum “Ao Vivo”, um registro muito bem produzido de sua atuação sobre os palcos. Gravado a partir de shows no Canecão (Rio de Janeiro) e Tom Brasil (São Paulo), este quarto disco de carreira captou a essência das apresentações intensas pelas quais a cantora ficou conhecida, e o ecletismo de seu repertório é comprovado por canções como “Eu Sou Neguinha”, “Na Cadência do Samba” e “Coronel Antônio Bento”. Resenhando o “Ao Vivo”, o crítico musical Tárik de Souza publicou as seguintes palavras, no Jornal do Brasil: “Pode-se dizer que a Cássia definitiva – a que vai para o trono das melhores vozes da MPB – incorpora o peso do rock, a intensidade do blues e o balanço da bossa”.


Empolgada com o reconhecimento de seu talento, Cássia botou a mão na massa; fez diversos shows de blues com o guitarrista Victor Biglione, em mais uma investida que comprova o ecletismo de suas capacidades musicais. O crítico Mauro Trindade, do Jornal do Brasil, assitiu a uma apresentação da dupla e profetizou na época: “Show de blues demonstra que Cássia Eller chegou para arrasar. Mesmo estando há quatro meses com seu primeiro LP, só agora é que sua carreira vai, efetivamente, decolar”. A parceria da carioca com Biglione rendeu, inclusive, o álbum “Victor Biglione e Cássia Eller in Blues: If Six Was Nine”, ainda inédito no mercado.
Em 1992, veio o segundo álbum, intitulado “O Marginal”, que consolidou a jovem Cássia Eller como uma das melhores intérpretes de canções de Cazuza e Renato Russo, além de finalmente consagrar o timbre grave de sua voz como marca registrada. O disco trouxe covers competentes para as vigorosas “If Six Was Nine” e “Hear My Train Coming”, de Jimi Hendrix; a instrumental “Comédia”; e “O Marginal” e “Eles”, as únicas composições próprias que figuraram no repertório de Cássia – desde o início de sua carreira, a cantora assumiu sua postura de intérprete declarada. A inovação técnica ficou por conta de “Bobagem”, composição de Rita Lee, em cuja gravação foram utilizados quatro baixos, algo até então inédito.
Você está acompanhando o especial “Cássia Eller Sem Limites”, do projeto “Memória Mais Ação”. Amanhã você fica sabendo como foi produzida aquela que seria uma das interpretações mais brilhantes da cantora: a canção “Malandragem”. 
Tendo largado a escola antes de terminar o segundo grau, Cássia Eller se aventurou por diversos empregos: de garçonete a cozinheira, de redatora a tradutora, de ajudante de pedreiro a secretária do Ministério da Agricultura, ela experimentou de tudo um pouco. Este último emprego foi conseguido quando Cássia foi chamada para substituir uma amiga. “Fui demitida no terceiro dia. Aí resolvi só cantar”, declarou a cantora em uma entrevista concedida anos depois. No fundo, aquela garota sonhadora sempre teve certeza de que seguiria carreira como artista musical.
Ainda em Brasília, Cássia Eller cantou em um grupo de forró e ainda participou, durante dois anos, do Massa Real, o primeiro trio-elétrico do Planalto. Sem perceber, com esses primeiros trabalhos a jovem cantora não somente adquiria experiência, mas também aglutinava referências musicais diversas, que mais tarde a tornariam uma das artistas mais ecléticas e versáteis do Brasil. Através do Massa Real, por exemplo, Cássia teve contato com as nuances instrumentais e a percussão típica da música baiana.
Mas foi em 1983 que a carioca realizou seu primeiro grande show: integrando o grupo Malas & Bagagens, ela se apresentou no festival Rockway 2, que teve atrações como Raul Seixas, O Terço, Luís Guedes, e os garotos do Paralamas do Sucesso, que faziam seu primeiro show em Brasília. Este foi mais um passo importante para uma carreira que engatinhava com cada vez mais determinação.

Certamente você já deve ter ouvido esta canção, e muito provavelmente em sua versão mais conhecida, na voz de Cássia Eller, cantora carioca de vida intensa e atitudes polêmicas. “Malandragem”, a música em questão, foi um de seus maiores sucessos e uma de suas mais memoráveis interpretações, cuja letra filosofa sobre a desilusão e o desajuste em relação à realidade, sensações que permearam a vida dessa artista singular.
Cássia Rejane Eller nasceu no dia 10 de dezembro de 1962, no Rio de Janeiro (RJ), filha mais velha das cinco crianças da dona-de-casa Nancy Eller e do sargento pára-quedista do Exército Altair Eller. Devido ao ofício militar do pai, a garota mudou de endereço várias vezes, passando sua infância e adolescência em diversas cidades brasileiras. Já aos 6 anos foi morar em Belo Horizonte (MG); aos 10, foi para Santarém (PA), e aos 12 anos volta ao Rio. Cássia despertou interesse pela música quando, aos 14 anos, ganhou um violão de presente, com o qual aprendeu a tocar várias canções dos Beatles. A convivência com familiares e amigos músicos também contribuiu para impulsionar aquele hobby que fascinava a garota. Certa vez, numa entrevista, Cássia falou do ambiente musical em que vivia na infância: “Na minha casa se ouvia muita música. Minha avó materna tocava bandolim, todos na família da minha mãe tocavam instrumento e ela cantava. Cresci ouvindo minha mãe cantando enquanto arrumava a casa e comecei a cantar com ela. Aprendi a tocar violão com primos. Mas ninguém na família quis ser profissional”. A pequena garota, no entanto, já alimentava o sonho de ser cantora.
Quatro anos depois, a família Eller muda novamente de endereço, e desta vez vai para Brasília (DF). Com 18 anos na época, Cássia Eller chega à capital do país determinada a evoluir suas habilidades musicais técnicas e amadurecer seus planos de construir uma carreira profissional baseada no amor pela música. A carioca, então, embarca numa verdadeira cruzada no mundo musical: estuda canto lírico, faz testes para musicais, integra um coral e participa de óperas, inclusive de um espetáculo de Oswaldo Montenegro em 1981, que consistiu na primeira vez que a garota subiu num palco.