
“Foi num desses shows de axé que aconteceu.” – começa o relato do estudante universitário de 22 anos que chamaremos de João – nome fictício. – “Eu estava com amigos e uma garota jovem, mais ou menos da minha idade, olhou para mim e me chamou. Foi algo rápido, trocamos algumas palavras e quando dei por mim estávamos no meu carro fazendo sexo”.
A história acima é cada vez mais fácil de escutar numa conversa entre amigos ou amigas. Não importa de onde parta o convite – se é do time masculino ou do feminino -, o que acontece de fato é que a geração atual não abandonou o hábito do sexo casual, aquele que não tem sentimento em jogo ou que não vise um relacionamento mais sério como o namoro.
“Quando era mais novo achava estranho ‘ficar’ com alguém numa noite sem conhecê-la” – diz João – “Mas hoje freqüento certos lugares da cidade, principalmente no final de semana, que me permitem encontrar alguém que queria só transar sem necessariamente querer algo mais sério. São lugares bacanas e as pessoas ali são interessantes. É uma rotina que eu gosto de ter”, afirma o universitário.
Com a chegada de medicamentos contraceptivos no mercado ainda na década de 60, o uso de preservativo nas relações e a pílula do dia seguinte, a sociedade conseguiu separar o ato sexual da reprodução. “Nos dias de hoje as pessoas são muito mais hedonistas, buscand o prazer próprio”, afirma a psicóloga Clarissa Pinto. “Aliado a isso, temos esse n números de opções contraceptivas que inviabilizam uma gravidez indesejada e também impedem a transmissão de doenças. Isso torna o ambiente propício para o sexo despreocupado entre pessoas que não se conhecem”.

As estatísticas não mentem. De acordo com pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde nesse ano, o número de pessoas adeptas ao sexo casual no Brasil dobrou. A Pesquisa de Comportamento, Atitudes e Práticas da População Brasileira concluiu que 9% do público entrevistado tiveram cinco ou mais parceiros nos últimos doze meses. Pesquisa semelhante feita em 2004 apontava apenas para 4%. O próprio ministro da Saúde, José Gomes Temporão, reconhece a prática: “As pessoas estão se relacionamento mais com parceiros e parceiras casuais”.
“A sociedade hoje é muito mais acostumada com a idéia do sexo. A mídia e o mercado incentivam a prática. Junte isso com o tempo cada vez menor que as pessoas têm de se relacionar ai teremos esses ‘amores’ de baladas, de raves, de carnavais etc. O sujeito se relaciona com alguém no âmbito do sexo, do prazer, nem necessariamente ter uma troca de sentimentos.”, explica a psicóloga. João concorda: “É difícil às vezes ter um relacionamento quando o casal tem mil e uma coisas para fazer durante a semana, como estudos e trabalho. As pessoas passaram a ser mais individualistas hoje”.
E se o sexo casual vem apenas para satisfazer a necessidade do corpo, e por isso mesmo encontra muitos adeptos hoje, o que dizer do sentimento no dia seguinte ao ato? Fechamos mais um texto dos ‘Vícios Modernos’ ainda com a voz João, que cedeu pequenos trechos do que se passa em sua rotina e na de tantos outros adeptos a essa forma de prazer. “Reconheço que é algo vazio transar com alguém que você não conhece, mas o que posso fazer? Estaria mentindo se dissesse que não é prazeroso”.

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