Ninguém poderia prever que aqueles quatro garotos formariam a maior banda de rock do Brasil… A Legião Urbana nasceu em 1982 em decorrência da separação do grupo Aborto Elétrico, um dos nomes mais influentes do cenário punk que eclodia entre os jovens de Brasília no final dos anos 1970. A primeira formação do Legião contava com Renato Russo nos vocais e baixo, Marcelo Bonfá na bateria, Eduardo Paraná na guitarra e Paulo Paulista nos teclados. Com a saída destes dois últimos, Dado Villa-Lobos assumiu a guitarra em março de 1983.

Herdando várias músicas do repertório do Aborto Elétrico (que também originaria outra banda da cena brasiliense, o Capital Inicial), as primeiras apresentações do Legião Urbana traziam composições de temas fortes e mensagens de rebeldia e contestação sócio-política, como “Que País é Este?”, “Química” e “Geração Coca-Cola”. Ao assistir a um show do grupo, qualquer um perceberia o impacto de sua sonoridade e o frescor de sua atitude, diretamente inspirada em bandas britânicas como Joy Division e The Smiths. A fama bateria à porta dos garotos rebeldes no dia 23 de julho de 1983, quando eles se apresentam no Circo Voador, do Rio de Janeiro, e são convidados pela gravadora EMI para gravar uma fita demo.

Lançado em 1985, o primeiro disco do grupo, intitulado “Legião Urbana”, marcou a entrada do baixista Renato Rocha e chamou a atenção da crítica especializada e dos jovens brasileiros, que se identificaram com o universo ao qual a banda se referia em canções como “Será”, “Por Enquanto”, “Geração Coca-Cola” e “Ainda é Cedo”, hits instantâneos e clássicos eternizados na voz de Renato Russo, o líder performático cuja atitude se comparava à do carismático Cazuza. Em 1986, depois do impactante sucesso da estreia, o Legião entrega ao público o disco “Dois”, o álbum mais vendido da história da banda, que trouxe mais sucessos para solidificar a base de fãs: “Índios”, “Quase Sem Querer”, “Eduardo e Mônica” e “Tempo Perdido”, considerado um hino da juventude roqueira do Brasil.

O estouro de “Dois”, porém, quase faz a banda terminar: numa apresentação tumultuada em dezembro de 1986, em Brasília, vinte pessoas ficam feridas e uma jovem morre. Os membros cogitaram o fim do Legião, mas preferiram dar continuidade à carreira promissora, lançando o terceiro disco, “Que País é Este?”, uma espécie de coletânea com músicas do Aborto Elétrico, recontando a trajetória do grupo com pérolas como “Angra dos Reis”, “Faroeste Caboclo” e “Que País é Este?”. Desfrutando de seu auge no cenário nacional e colecionando elogios da imprensa, a Legião Urbana gravou, em 1989, o álbum “As Quatro Estações”, que firmou definitivamente a importância de Renato Russo e Cia. na história do rock brasileiro. Das onze faixas do disco, pelo menos nove se destacaram como hits radiofônicos, dentre elas “Pais e Filhos” e “Monte Castelo”. Devido a desentendimentos com Bonfá, Villa-Lobos e Russo, Renato Rocha deixa o grupo.

Em 1991, quando “V” foi lançado, porém, o vocalista Renato Russo atravessava um momento delicado em sua vida; ele sofria de alcoolismo e descobria que era soropositivo. Entre os destaques do melancólico quinto disco, estão “Teatro dos Vampiros” e “Vento no Litoral”. No ano seguinte, o Legião lança o bem-sucedido “Acústico MTV”, mas a turnê é interrompida devido a complicações de saúde de Renato Russo, que no início de 1993 inicia um tratamento intensivo em decorrência da AIDS. Neste mesmo ano, a banda grava “O Descobrimento do Brasil”, que alterna canções de alegria, saudosismo e tristeza, como “Perfeição” e “Vinte e Nove”.

O último disco da banda viria em 1996, com o título de “A Tempestade ou O Livro dos Dias”. O amadurecimento musical dos integrantes se mistura à melancolia da debilidade física de Renato Russo e resulta em canções sensíveis e densamente poéticas, como “A Via Láctea”, “O Livro dos Dias” e “Longe do Meu Lado”. O vocalista do Legião viria a falecer em 11 de outubro daquele ano, dias depois do lançamento do álbum. Villa-Lobos e Bonfá decidiram, então, acabar oficialmente com o grupo.
O Legião Urbana ilustra perfeitamente um daqueles casos frequentes no mundo da cultura pop em que uma banda de rock dispara para o sucesso com genialidade e inteligência ímpares mas encontram um final tragicamente prematuro para a carreira. O polêmico e talentoso Renato Russo se foi como tantos outros astros levados pela AIDS, mas ainda é adorado com a mesma devoção e admiração de uma verdadeira legião de fãs que se renova a cada década. Poucos grupos musicais brasileiros souberam aliar espírito jovem à crítica sócio-política em letras cheias de poeticidade. O Legião foi o melhor de sua linhagem, e por isso é considerado a maior banda de rock do Brasil.
Este foi o especial “Legião: Rebeldes com Causa”, homenagem do projeto Memória Mais Ação à banda Legião Urbana.